Alguém aqui malha? Faz um ano que eu parei. Parei de malhar e me orgulho disso.
Academia, para quem não sabe, é o local freqüentado por pessoas que não gostam de malhar, mas fazem-no porque não têm tempo para outra atividade física. Mentira. Quem não gosta de malhar não malha. Essa desculpa de não ter tempo já foi longe de mais. Quem diz uma coisa dessas está desesperado querendo perder uma gordurinha localizada, mas não consegue. É o mesmo que o seu vizinho esquisitão e magrelo dizer que gosta de boxe, e está treinando sério para ser o próximo Tyson. Aceita que ele não gosta de boxe e esquece aquele dia que você viu ele de luvinha e calção no corredor. A verdade é constrangedora de mais.
Quando você entra em uma academia você é prontamente recebido por um instrutor que pese no mínimo 150 kg de puro músculo. O cara é praticamente um monstro, se ele o quisesse engolia você sem mastigar. Felizmente você é muito gordo e a dieta dele é proteína pura, logo ele não engole você.
Aquele animal atrofiado está ali para provar que aquele monte de peso realmente funciona. Se ele ta dizendo que não tomou produto nenhum, e nessa hora você olha bem torto pra ele, só malhou, e ficou daquele tamanho, então você pode ficar também.
Eu sempre seguia o que o instrutor falava, mas algumas coisas me deixavam um pouco desconfortável. Eu odiava malhar o bumbum, ou utilizar qualquer outro aparelho só de mulheres. Eu queria chegar em casa e ouvir minha mãe me chamar de deformado. Nunca quis uma bundinha durinha.
Hoje em dia eu sou fracote e gordinho da cintura pra cima, mas da cintura pra baixo pareço uma dançarina de axé. Tudo bem que a minha namorada gosta da minha bundinha durinha, mas não era bem isso que eu queria. Eu queria entrar na faculdade atravessando a parede de gesso, rasgar a camisa e gritar “grauuurrrrr” para a professora.
Academia também é o lugar para o papo de academia. Para iniciar esta conversa animada, a versão marombeira da história de pescador, basta ficar na frente do espelho e flexionar um músculo. Menos de dez segundos e cola alguém com você. “Ta pegando quanto no supino?”. Você pode dar qualquer resposta. Pode dizer que pega o dobro. Pode ir mais além e dizer que pega mais do que o limite da máquina, mas a resposta correta neste caso é: “Essa máquina é minha. Pego ela inteira já. Coloco ela de baixo do braço e trago ela pra cá de bicicleta todos os dias de manhã pra emprestar pro pessoal treinar.”. Depois dessa sua demonstração de estupidez a outra pessoa vai pedir licença porque ainda falta correr mais 1300 km e vai te deixar falando sozinho.
Quando eu malhava, eu não me importava em pegar menos peso que qualquer um. Até um cara raquítico, com uma aparência de doente, levantava quatro vezes mais peso que eu. Tenho certeza que ele tinha algum truque ou algo assim, mas não me incomodava com isso. Só um pouco. Eu lembro disso até hoje, mas não me incomodou tanto assim na hora. Mentira. Mas eu nunca gostei de malhar, só malhava porque não tinha tempo pra fazer outra coisa. Hoje em dia eu parei e me orgulho.
Odeio quando o instrutor diz que vai colocar um peso e me pergunta se ficou bom. As vezes ele não coloca nada. Não sei não, mas se fosse para malhar sem peso eu ficava em casa fazendo mímica.
- Ficou um pouco leve.
- Vou aumentar um pouco.
O instrutor adiciona uma placa de meio quilo ao aparelho.
- Olha, ainda está muito leve.
- Fica assim por hoje pra não forçar. Se amanhã você ainda estiver achando leve a gente aumenta mais um pouco.
- Não sei você, mas eu acho que a gravidade vai continuar sendo a mesma amanhã.