Anderson Leitão e a telefonista

Anderson Leitão nunca teve uma vida social muito ativa. Desde o colégio ele nunca teve muitos amigos. Não que ele fosse um cara excluído. Todos sempre gostaram muito dele. As pessoas se referem a Leitão como um sujeito simpático, um boa praça, sempre pronto a ajudar. Ele é convidado a festas e happy hours. Ele até costuma ir e ficar um pouco, mas não chega a se relacionar com ninguém de forma pessoal. Essa é a chave para a solidão de Anderson Leitão. Ele não se relaciona pessoalmente com as pessoas. Não tem conversas profundas, muito menos confidencia problemas. Anderson Leitão é como uma tartaruga: Um rostinho amigável saindo pela fresta de um casco bem duro.

O verdadeiro Anderson Leitão é um sujeito pedante, arrogante e impaciente. Ele não se relaciona com ninguém porque não se interessa de fato por aquilo que os outros podem ter a dizer. Mas ele não consegue ser grosso com ninguém. Nem com a mais fútil secretaria. Nem com Rosemery, a telefonista.

Certo dia Rosemary estava muito triste e chamou Leitão para conversar. Ela disse estar deprimida. Disse que sua vida estava um tédio, que nada dava certo, que seu namorado, 15 anos mais jovem, a havia largado, que ela havia perdido uma liquidação, que sua vaga de estacionamento era a pior de toda a redação e inúmeras outras futilidades. Anderson Leitão se chateou e resolveu incentivar o suicídio da colega:

- Você sabe que, querendo, você pode acabar com todo esse sofrimento.

Era só isso que Rosemery precisava ouvir para finalmente tomar coragem e pedir um aumento, que ela conseguiu. Deu entrada no financiamento de uma casa próxima ao trabalho e nunca mais precisou se preocupar com a vaga na garagem. Passou a caminhar para o trabalho todos os dias e foi assim que conheceu, em uma esquina, um sujeitinho chamado Penrod, por quem se apaixonou.

A vida de Rosemery mudou e ela ficou eternamente grata a Anderson Leitão.