Armandinho 5

Denis salvou Armandinho, nosso herói, garoto humilde que nunca conheceu seu pai e agora o procura pelo mundo. Denis salvou Armandinho e o levou à sua lancha.

- Rapaz, você está bem?

- Eu não conheço meu pai.

- Meu Deus, o que aconteceu com o seu olho?

- Meu olho caiu, mas não tive maiores complicações.

- Você precisa encontrar um médico.

- Preciso. Preciso encontrar um médico. Você é a primeira pessoa que me entende.

- Eu vou dar a volta com o barco e em uns vinte…

- Não. Meu pai não está em terra.

- A gente pode ligar para o seu pai do hospital para ele voltar.

- Meu pai não tem telefone.

- Olha, para alguém que não tem olho, quase morreu amarrado em uma baleia e parece estar delirando, você parece estar muito bem.

- A minha maior ferida é a ferida no meu coração.

- Rapaz, isso bateu no fundo da alma.

Houve um breve momento em que os dois pareciam se entender, mas Armandinho era um homem focado em seu objetivo.

- Desce do barco.

- Ok, mas só porque você é assustador.

- Oi, será que a gente não pode pensar em outra saída? – Disse o velho executivo.

- Olha, quando um homem sem olho que está procurando o pai me manda fazer alguma coisa eu normalmente faço.

- Eu não vou sair deste barco, o que ele pode fazer?

Talvez Armandinho não pudesse fazer nada, mas o terrível barco pirata que se aproximava provavelmente traria algum argumento mais convincente para abandonar os tripulantes da lancha no mar.

- Papai – disse armandinho enquanto procurava em seus bolsos por seu olho.

O barco pirata não era como um barco pirata que você imaginaria. Era um grande barco moderno, mas com pessoas segurando metralhadoras e gritando coisas ofensivas. Não havia nenhuma bandeira pirata, e isso desapontou Armandinho um pouco.

Dois piratas desceram em um pequeno barco e vieram em direção à lancha. A direção do vento mudou neste momento, ou possivelmente foi só impressão. Os piratas encostaram na lancha e subiram.

- Vocês querem morrer?

- Acho que eles querem morrer sim – disse o segundo pirata.

- É eles tem cara de que querem morrer, mas talvez eles mudem de ideia.

- Nós não queremos morrer – respondeu o executivo.

O primeiro pirata, que era um jovem de 37 anos – na verdade ele não era tão jovem, mas como ele andava com piratas e não tinha muita barba, se passava por mais jovem para enganar as meninas -, apontou sua metralhadora para o executivo e gritou:

- O que você disse?

- Eu não quero morrer! – O executivo começou a chorar neste momento.

- Ah, eu entendi que vocês queriam morrer.

- Eu também achei que eles queriam morrer – completou o segundo pirata, um homem musculoso que vestia apenas uma sunga.

Armandinho não havia prestado atenção em nada disso. Ele estava hipnotizado pelo barco pirata. Sua mente fervilhava imaginando como seria o encontro com seu pai. Será que ele ainda se lembrava que tinha um filho? Vai ver ele teve outro filho e não precisava mais de um filho velho. Armandinho sentiu medo pela primeira vez.

- Homem assustador, faça alguma coisa – pediu o executivo, mas Armandinho não fez nada. Nada além de chorar.

- Ei, não faz isso, não é pra chorar. Não chorem. A gente só quer roubar vocês e voltar para o navio. Nós não vamos matar ninguém de verdade… A não ser que a gente mude de ideia, porque nós somos piratas maus.

- É, a gente realmente não se importa.

- A gente não se importa.

- É, vamos matar vocês agora.

Os piratas atiraram contra o casal de executivos que ainda tiveram tempo de se arrepender do pacote de turismo que contrataram antes de morrer.

- Quem quer morrer agora?

- Eu quero meu papai – disse Armandinho.

Armandinho estava delirando, estava achando que era criança mais uma vez.

- Porque esse cara é tão estranho? – Perguntou o primeiro pirata.

- Eu encontrei ele assim. Acho que ele é alguma espécie de jovem que perdeu o olho e descobriu que seu pai não é seu pai, e que nunca conheceu o verdadeiro pai, por isso ele procurou por todos os lugares e acabou enlouquecendo. Ele enlouqueceu e acredita que seu pai é alguma espécie de médico pirata que pode recolocar seu olho. – Você precisa reconhecer que Denis era bom em ler as pessoas.

Os piratas se entreolharam. Em seu navio havia um médico-cirurgião-oftamologista que também parecia um mendigo. “Mas será?”