Assalto no engarrafamento

Hoje eu passei 1h30min engarrafado em uma rua. 30min desse tempo eu passei em um quarteirão só. Planejamento de trânsito? Que porra é essa? Neste quarteirão em que passei 30 minutos eu passei por momentos de tensão.

MOMENTOS DE TENSÃO! Entra uma música tensa agora.

Estava com a minha namorada e o irmão dela no carro quando de repente meus olhos cariocas bem treinados avistam uma arma de fogo. Levem as mãos à boca leitores. O momento para isso é agora. Eu avistei o meliante a incríveis… 5 metros? Qual a distância do seu carro para o carro da frente? Vou chutar 5 metros. E a arma estava lá. Na mão de um bandido! Eu fiquei com medo, mas ligeiramente tranqüilo por ter avistado a arma com tanta antecedência. 5 metros em uma cidade onde elas costumam aparecer a 20 centímetros da tua cara é muita coisa.

Mas o ladrão estava lá com arma empunhada forçando a maçaneta da porta do motorista e eu assistindo tudo isso do carro de trás. Também não tinha muita escolha. Meia hora de engarrafamento para trás, 1 hora para frente e 10 minutos até a primeira transversal, que também estava devidamente engarrafada. Não tinha o que fazer. Era sentar ali e rezar para que o cara metesse um tiro na cara do motorista da frente. Não que eu seja espírito de porco, mas é que as probabilidades dele resolver assaltar o meu carro depois de ter disparado um tiro no meio da rua diminuem. Pelo menos se eu atirasse na cara de alguém eu pegaria o que desse pra pegar e sairia correndo satisfeito.

O bandido continuava balançando a arma na frente do vidro e mandando o motorista abaixá-lo, mas o motorista simplesmente não estava afim de ser assaltado naquela hora e não deu bola para o assaltante. Devia ser aquele tipo de gente que liga o ar-condicionado no máximo e não aceita abrir a janela por nada, você que traga um casaco e você que assalte outro carro, eu dirijo no ar-condicionado. Mas então o cara não abaixou o vidro. Sabem o que foi que o bandido fez? Guardou a arma e saiu andando tranqüilamente e desapareceu. Não tentou nem assaltar outro cara nem nada.

Ele havia se exposto. Mas não do jeito que vocês estão pensando. Ele se expôs porque sacudiu uma arma no meio de uma rua entupida de carros, chamando a atenção de todos ao seu redor. Não. Ele se expôs porque naquele breve momento toda a sua fragilidade estava exposta ao mundo. Ele estava ali de coração aberto pedindo para que um homem abaixasse seu vidro. Dava pra ver toda a infância problemática, os abusos, a passagem pelo Padre Severino, o uso de drogas, tudo. Ele havia sido mais uma vez rejeitado. Toda a sua vida simbolizada em um vidro que não quer descer.

O vidro não desceu e ele tinha uma arma. Quão devastador será isso para uma simples auto-estima marginal? Porque se você não consegue fazer alguém encurralado em um engarrafamento abaixar um vidro com uma arma de fogo você não consegue mais nada. O motorista do carro da frente olhou nos olhos da morte e não desviou o olhar. Nesse mundinho microscópico globalizado e degradado ainda existe espaço para gente com fibra de herói. Viva o motorista valente.