Fernando e Fábio estavam dirigindo há horas. Na realidade quem estava dirigindo era Fábio. Fernando era uma criança e não podia dirigir.
Fernando chegou a tentar dirigir. No meio do caminho mandou Fábio, seu segurança, encostar o carro que ele iria dirigir.
O menino deu partida no carro e pisou no acelerador. Para sua surpresa, apesar de fazer bastante barulho o carro não se mexeu.
- Ok, acho que essa merda de carro quebrou. Eu estou acelerando. Qual o problema desta porcaria.
O carro urrava enquanto Fernando falava.
- Você não engatou a marcha.
- Não entendo nada de marcha. Mas eu acelerei. Era para o carro andar.
- Não, você precisa engatar a marcha.
- Como eu faço isso?
- Pisa na embreagem e engata a primeira.
Fernando engatou a primeira e o carro morreu.
- Olha só pra isso. Agora ele quebrou.
- Você deixou o carro morrer.
- Esse carro é idiota. Onde já se viu um carro que você acelera e não anda. Porque alguém ia querer um carro idiota desses?
Fernando estava realmente aborrecido. Desceu do carro e enquanto caminhava para o banco de trás um policial parou ao seu lado.
- Você estava dirigindo esse carro garoto?
- Você viu esse carro andando?
- Não eu só vi o carro parado, mas vi que você estava sentado no lugar do motorista.
- É crime sentar no lugar do motorista?
- Não, mas…
- Então vai tomar no cu.
- Você está me mandando tomar no cu? Você está maluco garoto? Você quer ser preso?
- Eu não posso ser preso porque eu sou menor. Não sei se você está reparando aí de dentro dessa sua cabeça retardada, olhando por esses seus olhinhos espremidos de policial retardado, mas eu sou menor.
Fábio resolveu descer do carro. Não estava muito certo do que deveria fazer, mas pensou que se Fernando fosse preso provavelmente ele não receberia salário nenhum no fim do mês.
- Oi senhor policial. Algum problema?
- Seu filho acabou de desacatar uma autoridade.
- Autoridade meu pequeno caralho infantil.
Fábio deu uma risada da situação. Se fosse ele que tivesse dito aquilo teria levado um soco na boca do estômago, mas como havia sido uma criancinha o policial estava confuso.
- Olha senhor, ele é só uma criança…
Fernando voltou para o carro.
- Ele voltou para o carro já. Ele não estava dirigindo nem nada. Eu que estava dirigindo. Chamei ele lá para a frente para mostrar um negócio no GPS para ele.
- Você quer me dizer que esse garoto que passa o dia inteiro na internet se interessou em parar no meio da estrada para ver um GPS? O que poderia interessar ele em um GPS?
Fábio abriu o vidro do carro.
- Ele queria ver um negócio no mapa – disse Fábio.
- Senhor, eu tenho razões para acreditar que você estava molestando esse menino. Isso explicaria a agressividade e todo o resto.
- Fábio, o que é molestando?
- Ele quis dizer que eu fiz sexo com você.
- Você disse o que? Quem era o ativo e quem era o passivo? – Perguntou ao Policial.
- Você era o passivo menino.
- Eu era o passivo o caralho. Fernando diz pra ele que eu não era o passivo.
- A gente não estava fazendo sexo. O menino estava tentando dirigir.
- Ah, então você estava tentando dirigir. – O policial disse satisfeito, como se desvendasse um grande mistério da literatura policial.
Fernando ficou visivelmente chateado com a satisfação do policial.
- Rapaz, você sabe que não pode ensinar uma criança a dirigir.
- Eu não estava ensinado. Ele estava tentando aprender sozinho.
Nesse momento o outro policial, que tinha passado o tempo todo sentado dentro da viatura, resolveu sair e se juntar à confusão.
- O que é que está acontecendo Lúcio?
Os policiais conversaram um pouco. Lúcio gesticulava e apontava o carro e os rapazes enquanto contava o que tinha acontecido até ali.
Foi nesse momento que Fernando deu um tiro em direção aos policiais matando o outro e fazendo com que Lúcio se virasse e alcançasse sua arma.
- Pode parar com essa putaria se não eu atiro de novo.
De qualquer forma Fernando atirou de novo. Ele tinha falado por falar só, para dar mais emoção.
Atirar não é fácil, ainda mais para uma criança tão nova, mas aposto que se ele estivesse brincando com seu primo escondido e encontrasse a arma do pai, que estava descarregada, com exceção de uma única bala esquecida no cano, e acabasse matando o primo com um tiro certeiro no coração, ninguém questionaria nada. Fernando matou dois policias com dois tiros.
A estrada estava deserta e provavelmente ninguém nunca encontraria os dois. Fábio sabia disso e apenas voltou para o carro sem falar nada. Ou talvez ele tenha dito alguma coisa, mas não foi tão espirituoso quanto o momento pedia. Alguma coisa sobre ter sua arma de volta. Foi Fernando que arrematou tudo com seu comentário:
- Foda-se essa merda. Quanto tempo falta para a gente chegar?