Archive for the 'Contos' Category

Nov 13 2009

Melhores amigas

Published by Nigel Goodman under Contos

Denise e Paula eram melhores amigas. Eram amigas daquelas que contam tudo, que não guardam segredo, como se vivessem uma vida só. Haviam se conhecido no colégio e passado a vida inteira juntas, e era daí que vinha tanta intimidade.

Sempre que algo acontecia uma sempre confortava a outra. Foi assim com o primeiro fora, a primeira bomba na faculdade, a primeira batida de carro, a primeira demissão, a primeira menopausa. Foi assim com tudo que poderia ter sido.

Envelheceram juntas e, apesar das brigas – que existiram, não se engane, e algumas foram até feias -, resolveram passar seus últimos anos vivendo sob o mesmo teto, em um condomínio residencial projetado para a terceira idade.

Um dia Denise chegou em casa da aula de pintura e encontrou Paula chorando.

- O que foi que houve, Paula?

- Minha amiga Denise morreu. Eu acordei do meu cochilo e já tinham levado o corpo dela.

- Que besteira, Paula. Sou eu Denise. Não está me reconhecendo? – Denise já estava acostumada com as confusões da amiga, que não tinha envelhecido tão bem como ela.

Paula balançou a cabeça negativamente.

- Denise estudava comigo no Padre Bernadete, eu reconheço a Denise.

- Mas eu estudei no Padre Bernadete com você, não lembra? A gente matava aula na quadra com os meninos.

- E qual era o nome do menino que a Denise era apaixonada e que tirou a virgindade dela e depois nunca mais quis saber dela de novo?

Denise ficou um pouco chocada com a lembrança repentina da infância, mas foi logo interrompida por Paula que resolveu continuar a frase.

- Eu também não estranho. A Denise nunca teve uma boa higiene pessoal.

- Como assim nunca teve uma boa higiene pessoal?

- Ela era minha amiga, mas fedia. Fedia e era mau caráter.

- O nome dele era Arnaldo! – Disse Denise com convicção, abrindo um sorriso de satisfação, de quem, depois de todos estes anos, consegue arrancar a verdade de uma pessoa falsa.

Paula fez uma cara de espanto. Era mesmo Denise ali parada na sua frente. Ela não podia acreditar.

- Puta que pariu, morri também!

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Nov 13 2009

O melhor aluno do pré-vestibular

Published by Nigel Goodman under Contos

Regina se achava a melhor aluna do pré-vestibular e Mauro Sérgio sentava sempre ao lado dela.

Mauro Sérgio não chegava a ser burro, mas também não estava acima da média. O problema é que, sentado assim tão perto de Regina, era sempre considerado burro por comparação.

Um dia Mauro Sérgio se encheu de tudo isso. Passou a noite inteira estudando. Ele adiantou todos os exercícios da próxima aula. Estava com tudo pronto. Fez e refez todos os exercícios de matemática para garantir que estavam corretos. Se empolgou com a idéia e instalou programas de computador para visualizar gráficos e chegou até a ler sobre o tema na internet. Leu até além da sua matéria. Mauro Sérgio havia mergulhado de cabeça na matemática e já estava até sonhando com sua faculdade, seu mestrado, doutorado e pós-doutorado. Ele seria um grande acadêmico.

“Um grande acadêmico!” Mauro Sérgio saboreava a palavra acadêmico e sorria empolgado com o primeiro plano que fazia para o seu futuro. E era um futuro brilhante que ele previa.

Mauro Sérgio ia ser melhor que Regina. Ia com certeza. Tão melhor que deixaria Regina chateada. Ah, Mauro Sérgio queria deixar Regina chateada, como ele queria. Ele queria que Regina engolisse toda a sua arrogância. Ele a faria pagar por todas as vezes que ela o corrigiu na frente de alguém, sem que ele tivesse perguntado nada, só para humilhá-lo.

Regina teria que reconhecer o intelecto superior daquele futuro doutor.

Talvez o seu recém descoberto brilhantismo chegasse até mesmo a impressionar Regina de outras maneiras. Talvez ela se sentisse atraída por um homem tão inteligente e matemático tão promissor. Talvez ela aceitasse sair com ele depois da aula para um suco. Quem sabe marcassem um cinema no final de semana. Regina iria pedir para repetir a dose no dia seguinte, mas Mauro Sérgio diria que precisava estudar, pois a matemática não se aprenderia sozinha.

Cada vez mais Mauro Sérgio se dedicaria à matemática enquanto Regina ficaria obcecada – coitada -, entraria em depressão, perseguiria Mauro Sérgio e imploraria pela sua atenção, não conseguiria mais estudar, nem se concentrar nas aulas. Suas notas começariam a baixar e ela não conseguiria entrar para a faculdade de medicina.

Mauro Sérgio se assustou. Como ele poderia ter prazer em estragar a vida de uma menina tão inocente? Estes não eram os modos de um gênio, este era o modo dos vermes, pessoas de intelecto mediano que teriam uma vida sem resultados e por isso precisavam se agarrar a sua mesquinharia para terem forças para sobreviver.

Mauro Sérgio era um gênio, alguém superior, e por isso não deixaria que Regina estragasse sua vida. Ele lhe incentivaria e lhe cobraria. Quem sabe acabasse cedendo algumas vezes e aceitasse ir ao cinema. Ele programaria sua rotina melhor para encaixar Regina. Isso que ele faria. Assim quem sabe com o tempo parasse de se incomodar com o tempo perdido, se acostumasse à companhia dela. Quem sabe ele até passasse a gostar dela?

Ele teria filhos com ela e ensinaria matemática a eles. Desde cedo os garotos seriam educados e se tornariam adultos fabulosos. Trariam avanços às ciências e fariam grandes descobertas em suas áreas.

O futuro que Mauro Sérgio imaginava era mesmo brilhante.

Ele acordou cedo no dia seguinte e correu para o pré-vestibular. Correu com prazer pela primeira vez na sua vida. Com prazer, pois não seria apenas mais um ignorante, ele agora seria um gênio da matemática. No caminho foi ensaiando o que pretendia falar para Regina. Pensou em se oferecer como monitor para um grupo de amigos. Seus olhos brilhavam.

Mauro Sérgio nunca havia se sentido daquela forma. Ele ainda tinha muito que aprender, muitas fórmulas para estudar, mas, principalmente, precisava decorar quando eram os feriados municipais.

Com raiva e frustrado, o maior matemático que nunca chegou a ser um matemático desistiu da matemática.

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Oct 30 2009

Fernando e Fábio – Posto de Gasolina

Published by Nigel Goodman under Fernando e Fábio

Já haviam se passado duas horas desde que Fernando e Fábio mataram os policiais.

- Quanto tempo falta para a gente chegar? – Já era a milésima vez que Fernando perguntava isso.

- Falta pouco.

De repente passou pela cabeça de Fernando que ele não fazia a menor idéia de para onde eles estavam indo.

- Para onde a gente está indo, Fábio?

- Hum… Para uma festa no interior. Vai ter show de rock.

- Nunca fui em um show de rock.

Fernando sentou no banco de trás e ficou quieto por mais alguns minutos.

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Oct 12 2009

Fernando e Fábio – Policiais na Estrada

Published by Nigel Goodman under Fernando e Fábio

Fernando e Fábio estavam dirigindo há horas. Na realidade quem estava dirigindo era Fábio. Fernando era uma criança e não podia dirigir.

Fernando chegou a tentar dirigir. No meio do caminho mandou Fábio, seu segurança, encostar o carro que ele iria dirigir.

O menino deu partida no carro e pisou no acelerador. Para sua surpresa, apesar de fazer bastante barulho o carro não se mexeu.

- Ok, acho que essa merda de carro quebrou. Eu estou acelerando. Qual o problema desta porcaria.

O carro urrava enquanto Fernando falava.

- Você não engatou a marcha.

- Não entendo nada de marcha. Mas eu acelerei. Era para o carro andar.

- Não, você precisa engatar a marcha.

- Como eu faço isso?

- Pisa na embreagem e engata a primeira.

Fernando engatou a primeira e o carro morreu.

- Olha só pra isso. Agora ele quebrou.

- Você deixou o carro morrer.

- Esse carro é idiota. Onde já se viu um carro que você acelera e não anda. Porque alguém ia querer um carro idiota desses?

Fernando estava realmente aborrecido. Desceu do carro e enquanto caminhava para o banco de trás um policial parou ao seu lado.

- Você estava dirigindo esse carro garoto?

- Você viu esse carro andando?

- Não eu só vi o carro parado, mas vi que você estava sentado no lugar do motorista.

- É crime sentar no lugar do motorista?

- Não, mas…

- Então vai tomar no cu.

- Você está me mandando tomar no cu? Você está maluco garoto? Você quer ser preso?

- Eu não posso ser preso porque eu sou menor. Não sei se você está reparando aí de dentro dessa sua cabeça retardada, olhando por esses seus olhinhos espremidos de policial retardado, mas eu sou menor.

Fábio resolveu descer do carro. Não estava muito certo do que deveria fazer, mas pensou que se Fernando fosse preso provavelmente ele não receberia salário nenhum no fim do mês.

- Oi senhor policial. Algum problema?

- Seu filho acabou de desacatar uma autoridade.

- Autoridade meu pequeno caralho infantil.

Fábio deu uma risada da situação. Se fosse ele que tivesse dito aquilo teria levado um soco na boca do estômago, mas como havia sido uma criancinha o policial estava confuso.

- Olha senhor, ele é só uma criança…

Fernando voltou para o carro.

- Ele voltou para o carro já. Ele não estava dirigindo nem nada. Eu que estava dirigindo. Chamei ele lá para a frente para mostrar um negócio no GPS para ele.

- Você quer me dizer que esse garoto que passa o dia inteiro na internet se interessou em parar no meio da estrada para ver um GPS? O que poderia interessar ele em um GPS?

Fábio abriu o vidro do carro.

- Ele queria ver um negócio no mapa – disse Fábio.

- Senhor, eu tenho razões para acreditar que você estava molestando esse menino. Isso explicaria a agressividade e todo o resto.

- Fábio, o que é molestando?

- Ele quis dizer que eu fiz sexo com você.

- Você disse o que? Quem era o ativo e quem era o passivo? – Perguntou ao Policial.

- Você era o passivo menino.

- Eu era o passivo o caralho. Fernando diz pra ele que eu não era o passivo.

- A gente não estava fazendo sexo. O menino estava tentando dirigir.

- Ah, então você estava tentando dirigir. – O policial disse satisfeito, como se desvendasse um grande mistério da literatura policial.

Fernando ficou visivelmente chateado com a satisfação do policial.

- Rapaz, você sabe que não pode ensinar uma criança a dirigir.

- Eu não estava ensinado. Ele estava tentando aprender sozinho.

Nesse momento o outro policial, que tinha passado o tempo todo sentado dentro da viatura, resolveu sair e se juntar à confusão.

- O que é que está acontecendo Lúcio?

Os policiais conversaram um pouco. Lúcio gesticulava e apontava o carro e os rapazes enquanto contava o que tinha acontecido até ali.

Foi nesse momento que Fernando deu um tiro em direção aos policiais matando o outro e fazendo com que Lúcio se virasse e alcançasse sua arma.

- Pode parar com essa putaria se não eu atiro de novo.

De qualquer forma Fernando atirou de novo. Ele tinha falado por falar só, para dar mais emoção.

Atirar não é fácil, ainda mais para uma criança tão nova, mas aposto que se ele estivesse brincando com seu primo escondido e encontrasse a arma do pai, que estava descarregada, com exceção de uma única bala esquecida no cano, e acabasse matando o primo com um tiro certeiro no coração, ninguém questionaria nada. Fernando matou dois policias com dois tiros.

A estrada estava deserta e provavelmente ninguém nunca encontraria os dois. Fábio sabia disso e apenas voltou para o carro sem falar nada. Ou talvez ele tenha dito alguma coisa, mas não foi tão espirituoso quanto o momento pedia. Alguma coisa sobre ter sua arma de volta. Foi Fernando que arrematou tudo com seu comentário:

- Foda-se essa merda. Quanto tempo falta para a gente chegar?

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Aug 12 2009

Armandinho 8

Published by Nigel Goodman under Armandinho

Armandinho foi carregado até uma pequena cabine onde havia uma maca no canto, uma mesa cheia de papeis e um computador antigo, um armário com alguns frascos e um pequeno carrinho com equipamentos cirúrgicos.

Armandinho foi colocado na maca e deixado lá. Não havia nenhum sinal do doutor, possível pai de Armandinho.

A espera pelo doutor, que não passou de alguns minutos, foi a mais terrível da vida de Armandinho. Apesar de tudo que havia passado até ali, de todo o sofrimento, da perda de seu olho, da proximidade que chegou da morte, aquele estava sendo o momento mais tenso até então. Armandinho tremia de nervoso. Em poucos momentos saberia o resultado de seu trabalho. Será que encontraria seu pai, ou será que havia desperdiçado sua vida inteira?

Quando o doutor pirata entrou no pequeno consultório Armandinho não pode acreditar no que seu olho via. O doutor era um homem barbado e descabelado e vestido como pirata, exatamente como Armandinho acreditava ser seu pai. As feições no rosto dos dois não eram parecidas, não tinham a mesma altura e enquanto Armandinho era mais magro e definido, o doutor era um homem troncudo. Tais diferenças se davam porque Armandinho havia puxado pela sua mãe, mas a semelhança entre seus cabelos e barbas rebeldes deixava claro para Armandinho que aquele era o seu pai.

Muitos não assumiriam um parentesco com outra pessoa baseando-se apenas no corte de cabelo e barba, mas de qualquer forma Armandinho estava certo. Seja por sorte, intuição, ou um conhecimento aprofundado de cabelo e barba – não importa -, Armandinho estava certo.

O velho médico pirata, por sua vez, não parecia estar reconhecendo Armandinho como seu filho desaparecido. Neste momento Armandinho falou:

- Papai!

Mas, infelizmente, Armandinho moveu os lábios, mas não saiu qualquer som de sua boca. Ele havia perdido a voz gritando mais cedo e agora não conseguiria contar para o homem na sua frente que ele era seu pai, e que ele, Armandinho, havia dedicado sua vida a encontrá-lo.

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Aug 12 2009

Fernando e Fábio – O Início

Published by Nigel Goodman under Fernando e Fábio

Fernando sempre teve uma vida normal. Um pouco acima da média, diga-se de passagem, mas não tão acima da média assim.

Fernando vivia em uma casa de classe média alta, bem alta na verdade, mas não tão alta que não consiga passar em portas ou conseguir uma namorada. Nesta casa viviam Fernando e sua Mãe. O pai de Fernando morreu enquanto este era apenas uma criança e Fernando foi criado por sua mãe, Ana Luiza.

Ana Luiza nunca teve muito jeito para criar seu filho, uma criança de sete anos completamente estragada. O garoto foi completamente mimado e nunca precisou fazer nada pra conseguir alguma coisa. Nunca abriu um livro, só assiste televisão e passa as madrugadas na internet. Fernando tem um segurança particular que lhe acompanha até a escola nos dias que ele acorda para ir a aula.

Fernando estuda em uma péssima escola particular administrada por membros de uma religião muito famosa. Como os cheques entram em dia Fernando nunca teve problema com as faltas ou atrasos, e como a ideia de uma instituição de ensino controlada por uma religião é a coisa mais ridícula que alguém já conseguiu ficar rico pondo em prática, Fernando tem conseguido passar de ano no ritmo normal.

Fernando é um garoto gordinho, o que nesta idade significa que é mais forte que toda a sua turma. Não tem nenhum amigo de verdade, mas algumas crianças o seguem por estatus ou proteção. Fernando é um pequeno sociopata.

Como foi dito antes, o pai de Fernando havia morrido, mas seu testamento só foi encontrado agora.

No seu testamento Ademastor havia deixado metade de sua fortuna para Fernando. Ana Luiza não ficou nem um pouco feliz em saber que grande parte de sua fortuna agora seria passada para o nome de seu filho. Ana Luiza tentou esconder este testamento, mas Rose a empregada descobriu que Seu Ademastor havia lhe deixado um velho aparelho de dvd. Rose contratou um advogado e foi atrás de seus direitos, e isso acabou fazendo com que fosse determinada a abertura de uma conta especial em nome de Fernando.

Fernando agora tinha R$ 2,1 milhões no banco, mas como ele tem apenas 7 anos a conta ficou sendo administrada por sua mãe.

Ficou sendo administrada por Ana Luiza, mas só até Fernando descobrir que era milionário e não sabia.

- Mãe, quero meu dinheiro

- Meu filho, esse dinheiro vai ficar em uma poupança até você se formar e sair aqui de casa.

- Você está louca? Eu tenho R$ 2,1 milhões, eu nunca mais vou aprender nada novo, você está entendendo? Eu não vou trabalhar nem estudar nem fazer nada que eu não queira.

- Não. Chega! Você não pode só fazer o que quer. – Ana Luiza percebeu que o menino estava apenas refletindo a educação que ela havia lhe dado. Nunca lhe cobrou nada, sempre fez suas vontades… Era óbvio que surgindo a oportunidade ele se tornaria um encostado para o resto da vida.

- Como é que é? Eu quero meu dinheiro agora.

- Fábio – Fernando se virou para seu segurança que estava assistindo à cena -, quanto esta vagabunda está te pagando pra cuidar de mim?

- R$ 1,5 mil por mês.

- Quer trabalhar pra mim? Eu dobro o teu salário.

- Feito.

- Você só precisa dar uma surra nessa vagabunda.

Fábio arregaçou as mangas de seu terno e caminhou em direção a Ana Luiza. A mulher não estava acreditando. Fábio se moveu rapidamente e socou forte o rosto da mulher. O punho de Fábio era largo, sua mão era pesada e os nós em seus dedos eram particularmente pronunciados. Fábio nunca teve nada contra sua ex patroa, mas socava sua cara com gosto. A mulher já estava inconsciente, mas Fábio a segurava pelo cabelo e erguia sua cabeça com a mão esquerda enquanto golpeava com a direita. Quando sentiu que havia amolecido alguns dentes de Ana Luiza resolveu parar.

Ana Luiza acordou cerca de 20 minutos depois, seu rosto estava inchado e alguns de seus dentes estavam soltos.

- Qual é a senha da minha conta, mãe?

Ana Luiza disse o número.

Fernando e Fábio deixaram aquela casa para nunca mais voltar. Fernando não tinha mais o que fazer ali. Ele agora era um jovem milionário e com Fábio do seu lado nada poderia detê-lo.

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Jul 17 2009

Armandinho 7

Published by Nigel Goodman under Armandinho

Este post, como a numeração supõe, faz parte de uma série. Eu recomendo muito que você leia os outros para conseguir entender a história.  Aqui você encontra o resto deste conto.

Piratas com jet skis vieram zunindo de todos os lados. Enquanto a baleia terminava de destroçar a lancha, Armandinho era levado ao grande barco pirata que estava ancorado ali perto.

Contrariando o que a maioria poderia pensar, Armandinho não desistiu. Em sua mente as coisas já não faziam mais sentido nenhum. Armandinho não sabia mais dizer se era um homem ou uma criança, ou quantos anos haviam passado desde que começara a procurar por seu pai. A angustia de uma busca de anos havia finalmente atingido a mente do nosso herói. Neste ponto Armandinho não passava de um espectador da própria vida, cooperando com tudo e sem saber se deveria ou não interagir com a realidade.

Os piratas chegaram com Armandinho no barco e em questão de minutos já estavam no convés, onde um pirata gordo que usava bóias de braço fazia perguntas à Armandinho.

- Eu vi você chamando a baleia! Como você fez aquilo? Você conversa com os animais, qual é o seu segredo?

Os piratas estavam sofrendo uma espécie de dilema. Normalmente eles torturariam seus sequestrados até conseguirem as respostas que precisavam, mas, neste caso em específico, alguns estavam receosos de que Armandinho pudesse enviar animais marinhos terríveis das profundezas para lhes atacar. Alguns acreditavam que, pelo simples fato de terem capturado um semideus, seriam amaldiçoados com tempestades sem fim.

Na realidade Armandinho era um homem desesperado pelo amor de um pai que nunca conheceu que, apesar de ter perdido um olho, teve muita sorte de conseguir chegar até ali. Esta descrição é muito diferente da descrição que você esperaria de um semideus. Mas os piratas não sabiam de toda a história de Armandinho e, baseando-se apenas pela sua aparência, ele realmente parecia um demônio surgido da boca do inferno. Estes piratas eram do tipo que respeitavam demônios surgidos da boca do inferno e por isso não estavam torturando Armandinho.

- Você não vai falar comigo? Você está zombando de mim? – O pirata gordo e de bóias continuava a pressionar Armandinho.

Armandinho estava delirando. Não havia nem compreendido as perguntas, mas a pressão da atenção dos piratas e a barulheira que se dava ao seu redor estavam o irritando. Armandinho respirou fundo e deu um grito estridente, daqueles que destrói a sua garganta e faz você perder a voz depois.

- Besta do inferno, você está tentando nos amaldiçoar! Ele está evocando os demônios das profundezas para devorarem nossas almas.

O pânico se espalhou e o caos tomou conta do convés. Alguns piratas pularam no mar, outros se preparavam para fugir com jet skis ou pequenas lanchas. Alguns piratas preparavam suas armas para enfrentar o exército do outro mundo que viriam em segundos.

Eis que no meio de toda a confusão surgiu o capitão pirata. O capitão era um homem alto e magro que vestia um terno preto, camisa branca e gravata vermelha. Ele carregava uma pasta de documentos na mão esquerda e vinha em direção à Armandinho.

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Jul 14 2009

Armandinho 6

Published by Nigel Goodman under Armandinho

Os dois piratas que haviam embarcado na lancha de Denis estavam prestes a perder a paciência, e, quando alguém com uma metralhadora está prestes a perder a paciência, talvez isso signifique que você deva fazer alguma coisa.

Infelizmente Armandinho não estava muito apto a fazer qualquer coisa naquele momento. Não estava apto, mas isso não quer dizer que não fez. Ele acabou fazendo alguma coisa que salvou sua vida – claro que sim. Se não tivesse feito esta não seria a história de um homem que sofreu o sofrimento mais cruel, o sofrimento de viver a vida sem conhecer o próprio pai. Esta de fato é a história de um homem que venceu o desafio de não ter um olho e fez coisas incríveis se alimentando do sonho de que encontraria seu pai. Esse não é o conto de um mergulhador de meia idade e sua lancha.

Um dos piratas – o musculoso que só vestia uma sunga – apontou sua metralhadora para Armandinho.

- Rapaz, você está chorando e gritando pelo seu pai, mas você tem que entender que nós somos piratas, nós precisamos voltar com esta lancha para o nosso barco. É assim que a gente ganha a vida.

- E essa é uma lancha bem cara – completou o outro pirata.

- Nós não temos motivo para matarmos você, preferimos que você pule no mar. Realmente preferimos que você pule no mar…

Neste momento Denis agarrou seu equipamento de mergulho e se jogou no mar.

- Seu amigo entendeu o que eu quis dizer.

- Entende? Ele pulou no mar e isso significa que ele não vai levar um tiro na cara.

- Se você pular no mar a gente não precisa matar você e jogá-lo no mar depois.

- Porque, não sei se deu para perceber, você vai parar no mar de qualquer jeito.

Neste momento Armandinho enlouqueceu de vez. Ficou biruta. Tão biruta que deu um grito sem qualquer motivo aparente. Um grito gutural e aterrorizante, seguido por:

- Papai!

Os piratas se encheram de vez. Apontaram as metralhadoras para Armandinho e estavam prontos a atirar quando foram interrompidos pela lancha que aparentemente resolvera sair voando.

Não se trata de uma lancha voadora, eu garanto. O movimento súbito da embarcação foi causado por uma baleia enfurecida.

Era a mesma baleia que já havia encalhado, servido de transporte para um homem desesperado que colocava todas as suas forças em encontrar o seu pai e, se tudo isso não bastasse, estavam jogando cadáveres exatamente onde ela planejava se acasalar e isto estava arruinando o clima.

A baleia resolvera que iria acabar com aquela palhaçada destruindo a lancha.

De perto pode ter parecido que a lancha havia saído voando, mas de longe, mais especificamente de certo barco pirata, parecia que Armandinho havia evocado um monstro marinho para se defender.

- Aquele homem acabou de ordenar que uma baleia atacasse a lancha. Como será que ele fez isso? – Perguntou um dos piratas que observava o ataque, mas só por perguntar.

- Aposto que nós ganharíamos alguma espécie de recompensa se trouxéssemos um homem que se comunica com baleias para o capitão.

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Jul 04 2009

Armandinho 5

Published by Nigel Goodman under Armandinho, Contos

Denis salvou Armandinho, nosso herói, garoto humilde que nunca conheceu seu pai e agora o procura pelo mundo. Denis salvou Armandinho e o levou à sua lancha.

- Rapaz, você está bem?

- Eu não conheço meu pai.

- Meu Deus, o que aconteceu com o seu olho?

- Meu olho caiu, mas não tive maiores complicações.

- Você precisa encontrar um médico.

- Preciso. Preciso encontrar um médico. Você é a primeira pessoa que me entende.

- Eu vou dar a volta com o barco e em uns vinte…

- Não. Meu pai não está em terra.

- A gente pode ligar para o seu pai do hospital para ele voltar.

- Meu pai não tem telefone.

- Olha, para alguém que não tem olho, quase morreu amarrado em uma baleia e parece estar delirando, você parece estar muito bem.

- A minha maior ferida é a ferida no meu coração.

- Rapaz, isso bateu no fundo da alma.

Houve um breve momento em que os dois pareciam se entender, mas Armandinho era um homem focado em seu objetivo.

- Desce do barco.

- Ok, mas só porque você é assustador.

- Oi, será que a gente não pode pensar em outra saída? – Disse o velho executivo.

- Olha, quando um homem sem olho que está procurando o pai me manda fazer alguma coisa eu normalmente faço.

- Eu não vou sair deste barco, o que ele pode fazer?

Talvez Armandinho não pudesse fazer nada, mas o terrível barco pirata que se aproximava provavelmente traria algum argumento mais convincente para abandonar os tripulantes da lancha no mar.

- Papai – disse armandinho enquanto procurava em seus bolsos por seu olho.

O barco pirata não era como um barco pirata que você imaginaria. Era um grande barco moderno, mas com pessoas segurando metralhadoras e gritando coisas ofensivas. Não havia nenhuma bandeira pirata, e isso desapontou Armandinho um pouco.

Dois piratas desceram em um pequeno barco e vieram em direção à lancha. A direção do vento mudou neste momento, ou possivelmente foi só impressão. Os piratas encostaram na lancha e subiram.

- Vocês querem morrer?

- Acho que eles querem morrer sim – disse o segundo pirata.

- É eles tem cara de que querem morrer, mas talvez eles mudem de ideia.

- Nós não queremos morrer – respondeu o executivo.

O primeiro pirata, que era um jovem de 37 anos – na verdade ele não era tão jovem, mas como ele andava com piratas e não tinha muita barba, se passava por mais jovem para enganar as meninas -, apontou sua metralhadora para o executivo e gritou:

- O que você disse?

- Eu não quero morrer! – O executivo começou a chorar neste momento.

- Ah, eu entendi que vocês queriam morrer.

- Eu também achei que eles queriam morrer – completou o segundo pirata, um homem musculoso que vestia apenas uma sunga.

Armandinho não havia prestado atenção em nada disso. Ele estava hipnotizado pelo barco pirata. Sua mente fervilhava imaginando como seria o encontro com seu pai. Será que ele ainda se lembrava que tinha um filho? Vai ver ele teve outro filho e não precisava mais de um filho velho. Armandinho sentiu medo pela primeira vez.

- Homem assustador, faça alguma coisa – pediu o executivo, mas Armandinho não fez nada. Nada além de chorar.

- Ei, não faz isso, não é pra chorar. Não chorem. A gente só quer roubar vocês e voltar para o navio. Nós não vamos matar ninguém de verdade… A não ser que a gente mude de ideia, porque nós somos piratas maus.

- É, a gente realmente não se importa.

- A gente não se importa.

- É, vamos matar vocês agora.

Os piratas atiraram contra o casal de executivos que ainda tiveram tempo de se arrepender do pacote de turismo que contrataram antes de morrer.

- Quem quer morrer agora?

- Eu quero meu papai – disse Armandinho.

Armandinho estava delirando, estava achando que era criança mais uma vez.

- Porque esse cara é tão estranho? – Perguntou o primeiro pirata.

- Eu encontrei ele assim. Acho que ele é alguma espécie de jovem que perdeu o olho e descobriu que seu pai não é seu pai, e que nunca conheceu o verdadeiro pai, por isso ele procurou por todos os lugares e acabou enlouquecendo. Ele enlouqueceu e acredita que seu pai é alguma espécie de médico pirata que pode recolocar seu olho. – Você precisa reconhecer que Denis era bom em ler as pessoas.

Os piratas se entreolharam. Em seu navio havia um médico-cirurgião-oftamologista que também parecia um mendigo. “Mas será?”

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Apr 21 2009

Armandinho 4

Published by Nigel Goodman under Armandinho

 Não existe jornada mais incrível que a do menino que largou tudo para encontrar o próprio pai. O que é mais inspirador em tudo isso é que ele nunca desistiu, nem mesmo quando perdeu um olho. Estamos falando de um menino caolho, que desafiou o mundo e fez o impossível para encontrar o próprio pai.

Bom, o que é impossível é impossível. Se você aceita o fato de alguém fazer uma coisa impossível assim, sem parar para refletir sobre a real impossibilidade do feito, você concorda que estamos diante de uma palavra inútil. Seria o impossível um sinônimo de possível? Ou seria o impossível um conceito relativo?

A aventura de um menino caolho de fato gerou o interesse de diversos filósofos. Muito se especulou, houve exaltação, mas, no fim, todos concordaram que o impossível não é algo que não pode ser feito, mas sim algo que só pode ser feito por um homem desesperado à procura de seu pai.

Sem se preocupar com o que os filósofos diziam a seu respeito Armandinho e a baleia seguiram oceano adentro. Armandinho estava montado na baleia, amarrado e olhando em direção ao horizonte em busca de um barco pirata.

A baleia nadava rente à superfície, batendo eventualmente com a calda na água e balançando Armandinho como um peão de rodeio. Ela se afastou da praia rapidamente, mas, assim que se deu por satisfeita com a profundidade do mar, mergulhou.

Não demorou mais do que alguns segundos para Armandinho se dar conta de que não poderia respirar de baixo d’água. Ele tentou se soltar das cordas, mas estavam muito apertadas. Ele puxou com força. Não conseguia se soltar de forma alguma. Imaginou como não havia previsto que isto eventualmente aconteceria. O que ele pensou que fosse acontecer? Achou que pilotaria a baleia como um jet ski?

“Maldita baleia, será que ela não percebe que eu não respiro de baixo d’água?” Pensou Armandinho. Mas, neste ponto, ele não poderia culpar a baleia, já que ela também não pretendia respirar de baixo d’água, pois, assim como Armandinho, também era um mamífero. Mas quem liga para a biologia quando está a um suspiro do fim, não é?

Armandinho enfiou a mão no bolso e segurou firme seu olho. Ele torceu o corpo e girou, sentiu que estava escorregando, se livrando das cordas, mas foi travado pela perna direita que continuava presa nas cordas.

Diferente de Armandinho que estava tendo um dia de azar, Denis o instrutor de mergulho estava tendo um dia de sorte. Ele havia levado um casal de executivos para mergulhar, coisa que por si só já garante uma boa remuneração. Quando ele percebeu que uma baleia iria passar por seu grupo de mergulho Denis sorriu. Baleias sempre geram gorjetas gordas.

O que para Denis era o sinal de uma gorjeta gorda, para o inconsciente Armandinho era o sinal de que viveria para encontrar o seu pai.

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