Archive for the 'Anderson Leitão' Category

Mar 12 2010

Entrevista com o homem do futuro

Published by Nigel Goodman under Anderson Leitão

Anderson Leitão era um repórter ansioso. Ansioso pelo sucesso. Não gostava de como as coisas estavam e queria acelerar sua vida até o momento de glórias que tinha certeza que chegaria. O futuro com certeza seria um lugar melhor.

Anderson Leitão estava em sua casa. Estava pensando em como faria para ser levado a sério no jornalismo, como faria para ser reconhecido, e de repente um estrondo e um homem apareceu no meio da sua sala de estar. Anderson não teve reação. Olhou para o homem e quando seus olhares se cruzaram o outro disse:

- Oi, eu vim do… Em que ano nós estamos?

- 2010 – respondeu Leitão.

- Do futuro. – O homem sorriu contente.

Leitão ficou alguns segundos observando aquele homem do futuro, que parecia muito feliz pelo fato de ser do futuro, e não do passado.

Quando você viaja no tempo você pode ser do futuro ou do passado. Se você for do futuro isso significa que você é uma pessoa muito legal, um homem que sabe das coisas que ninguém mais sabe. Você traz respostas para as dúvidas das pessoas. Você traz tranquilidade com histórias de um futuro incrível onde os carros voam e os aviões submergem. Ou então você traz esperança, uma chance para mudarmos um futuro apocalíptico. Se você vem do passado você é um idiota. Você não sabe de nada que as pessoas do presente sabem, você não vai entender as tecnologias e vai ficar enchendo o saco perguntando coisas obvias. Você vai baixar vírus no meu computador e será a pessoa mais ingênua do mundo. Tudo que você disser poderia ter sido descoberto através de uma simples pesquisa. Pessoas só vem do passado por motivos cômicos.

O homem que estava na sala de Anderson Leitão era um homem do futuro e isso era uma boa coisa. Anderson Leitão pensou e concluiu que as pessoas gostariam de saber sobre o futuro.

- Posso te entrevistar?

- Claro que sim.

- Primeiro, como é o futuro? Existe paz ou guerra?

- Paz, mas fazemos guerras de 4 em 4 anos para decidir as coisas. Chamamos elas de eleições.

- Como assim guerras de 4 em 4 anos? Isso é terrível.

- De forma alguma. É até bem divertido. Mas as guerras são um pouco diferentes das guerras que vocês têm hoje em dia.

- Diferentes como?

- Nos guerreamos com o que vocês chamam de paint ball.

Anderson Leitão tremeu e o homem de futuro continuou sua explicação:

- Não faz sentido ter que morrer em uma guerra. Nós simplesmente combinamos que no lugar de munição usaríamos tinta e quem fosse atingido teria que sair do território eleitoral.

- Território eleitoral?

- Brasília.

Anderson Leitão parou por alguns segundos tentando entender o que havia escutado.

- Você quer dizer então que as coisas no futuro são decididas em guerras – mais banais que as de hoje em dia -, porem vocês todos combinaram que para evitar as mortes usarão armas de paint ball.

- Isso mesmo – disse o homem que veio do futuro, muito satisfeito com a forma com que as pessoas no seu tempo resolvem as coisas.

- Você não deveria estar feliz. Isso é terrível. As pessoas deveriam resolver suas diferenças de forma pacífica, através de diálogo. Vocês simplesmente inventaram um jeito de pegar o que já era idiota e transformar em algo mais idiota ainda.

Os dois se olharam por alguns segundos e Leitão voltou a falar, só que mais calmo agora.

- E o que impede as pessoas que perderam a guerra de começar outra logo após. Eles não podem simplesmente se contentar em terem perdido uma partida de paint ball.

- Bom senso.

Anderson Leitão gargalhou.

- Você quer dizer que o que faz as guerras de paint ball funcionar é o bom senso? Bom senso?

- Claro. É tudo uma questão de bom senso. Veja, o jeito como vocês fazem as coisas é que não faz sentido nenhum.

- Por favor, se aprofunde.

- É até engraçado. Vocês tentam dialogar antes de ir para a guerra. – O homem do futuro deixou escapar uma risada. – Como é que você dialoga efetivamente sabendo que se tudo der errado você pode dar um soco na outra pessoa? Até existe o interesse em se resolver as coisas pacificamente, mas vocês sabem que não é a única saida.

- Faz sentido até.

- No futuro a gente começa com a guerra. Todos tem uma chance de “matar” aqueles que estão contrários e no fim quem ganha as guerras resolve as coisas. Pode parecer estranho, mas todas as pessoas que morrerem de brincadeira teriam morrido de verdade. Isso mexe com a cabeça das pessoas. E porque insistir em uma coisa que você sabe que não vai dar certo para você? A única saída para estas pessoas é o diálogo.

Anderson Leitão começava a se convencer. Quem sabe o futuro fosse realmente um lugar de pessoas mais evoluídas.

- E você deve estar pensando: mas isso deve fazer com que as pessoas que ganham as eleições ignorem totalmente as que perderam.

- Isso.

- Não acontece. Sabe, mesmo o lado que ganha tem muitas baixas. E poucas pessoas ficam satisfeitas em morrer por aquilo que elas acreditam. A não ser que você acredite em uma coisa só. Eu por exemplo já morri sete vezes. Na primeira vez você até pode se deixar levar por essa idéia, mas lá para a terceira você acaba percebendo que morrer uma vez só pelos seus ideais não é o suficiente. E é muito mais legal estar vivo para ver as coisas dando certo. Ou poder ter a prova de que você estava errado realmente.

- Eu não consigo acreditar nisso, mas até que faz sentido.

- Espero que tenha sido esclarecedor. Agora eu preciso ir.

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Jan 30 2009

O enterro de Anderson Leitão

Published by Nigel Goodman under Anderson Leitão

 Anderson Leitão morreu. Foi vitima de alguma espécie de maníaco. A polícia classificou o crime como latrocínio. Uma amiga de Anderson Leitão prestou depoimento dizendo que o criminoso era um mendigo e estava obviamente drogado. A polícia deduziu que o mendigo havia tentado assaltar Anderson, mas este reagiu enfurecendo o assaltante que o atacou brutalmente e em seguida fugiu com a sua carteira. Ninguém sabe ao certo quais os documentos e quanto dinheiro havia na carteira.

Apesar de trabalhar em um jornal, não saiu nenhuma nota de sua morte. O editor do jornal não gostava de notas fúnebres. Ele achava que deixavam o jornal pesado, o que não era bom. Para o editor o jornal era o lugar onde as pessoas gostavam de ler amenidades e se informar sobre o tempo no final de semana. Ninguém conseguiria se divertir sabendo que Anderson Leitão havia morrido, ninguém.

Apesar de não dar uma nota se quer no jornal, o editor, assim como todos os outros funcionários da redação sentiam muito carinho e admiração por Leitão. Como Leitão era sozinho, solteiro e sem parentes, resolveram que se juntariam para fazer um velório digno de seu tão querido colega.

No dia seguinte todos estavam reunidos no cemitério. Um rapaz distribuía cópias de algums entrevistas de Anderson. Muitos choravam. Uma pequena senhora que ninguém nunca havia visto antes tentou se jogar dentro da cova de Anderson, mas foi contida por um estagiário. Uma garota deslumbrante mentia sobre aventuras sexuais que nunca ocorreram. Todos estavam lá e estavam tristes, mas ao mesmo tempo felizes, pois estavam celebrando a vida de Leitão, e não sua morte. As pessoas estavam satisfeitas de poder dizer suas últimas palavras para um amigo tão querido e estavam satisfeitas em saber que Anderson estava tendo um enterro digno. Claro que Anderson preferiria ser cremado e ter suas cinzas jogadas no mar, e também não conhecia metade das pessoas ali e não se importava com a outra metade, mas ninguém sabia disso e estavam todos lá.

O chefe de Anderson foi o mais emocionado de todos na cerimônia. Ele subiu em um pequeno palanque e começou a contar histórias emocionadas. Chorou bastante e terminou dizendo:

- Anderson, se por acaso você estiver ouvindo, eu gostaria de uma entrevista com o Diabo para semana que vem.

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Nov 27 2008

Anderson Leitão e a telefonista

Published by Nigel Goodman under Anderson Leitão

Anderson Leitão nunca teve uma vida social muito ativa. Desde o colégio ele nunca teve muitos amigos. Não que ele fosse um cara excluído. Todos sempre gostaram muito dele. As pessoas se referem a Leitão como um sujeito simpático, um boa praça, sempre pronto a ajudar. Ele é convidado a festas e happy hours. Ele até costuma ir e ficar um pouco, mas não chega a se relacionar com ninguém de forma pessoal. Essa é a chave para a solidão de Anderson Leitão. Ele não se relaciona pessoalmente com as pessoas. Não tem conversas profundas, muito menos confidencia problemas. Anderson Leitão é como uma tartaruga: Um rostinho amigável saindo pela fresta de um casco bem duro.

O verdadeiro Anderson Leitão é um sujeito pedante, arrogante e impaciente. Ele não se relaciona com ninguém porque não se interessa de fato por aquilo que os outros podem ter a dizer. Mas ele não consegue ser grosso com ninguém. Nem com a mais fútil secretaria. Nem com Rosemery, a telefonista.

Certo dia Rosemary estava muito triste e chamou Leitão para conversar. Ela disse estar deprimida. Disse que sua vida estava um tédio, que nada dava certo, que seu namorado, 15 anos mais jovem, a havia largado, que ela havia perdido uma liquidação, que sua vaga de estacionamento era a pior de toda a redação e inúmeras outras futilidades. Anderson Leitão se chateou e resolveu incentivar o suicídio da colega:

- Você sabe que, querendo, você pode acabar com todo esse sofrimento.

Era só isso que Rosemery precisava ouvir para finalmente tomar coragem e pedir um aumento, que ela conseguiu. Deu entrada no financiamento de uma casa próxima ao trabalho e nunca mais precisou se preocupar com a vaga na garagem. Passou a caminhar para o trabalho todos os dias e foi assim que conheceu, em uma esquina, um sujeitinho chamado Penrod, por quem se apaixonou.

A vida de Rosemery mudou e ela ficou eternamente grata a Anderson Leitão.

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Aug 05 2008

Entrevista com o homem vestido de pirata

Published by Nigel Goodman under Anderson Leitão

Anderson Leitão era um sujeitinho frustrado. Ele reclamava do jornal onde trabalhava que lhe dava poucas oportunidades e das pessoas que não o levavam a sério. Anderson era ambicioso na medida certa. Ele queria crescer na sua profissão. Queria fazer diferença. Mas ninguém dava atenção às suas idéias, que, diga-se de passagem, eram realmente boas. Anderson Leitão sempre teve idéias interessantes que revigorariam o jornal para o qual escrevia, mas, como sempre acontecia, outras pessoas tinham planos muito definidos sobre os rumos do jornal e esses planos nunca tinham espaço para as idéias de Leitão.

Hoje Anderson chegou determinado no trabalho. Ele veio no caminho pensando que deveria defender seus ideais a todo o custo. Não ia aceitar mais ser tratado como criança. Se os outros repórteres não se incomodam de fazer matérias surreais isso não quer dizer que ele teria que suportar estas coisas. Anderson Leitão entrou sério na redação, não deu oi para ninguém e caminhou direto para a sala do chefão. Alguns colegas tentaram cumprimentar Leitão enquanto este passava, mas foram ignorados. Muitas pessoas foram ignoradas por ele aquela manhã, mas por algum motivo nenhuma delas se ofendeu. Elas imaginaram que ele deveria estar muito ocupado e Anderson acabou servindo de exemplo de dedicação para estas pessoas, que no futuro receberam promoções por seu trabalho duro e escreveram cartas de agradecimento dedicando seu sucesso a Anderson Leitão.

Anderson Leitão entrou na sala do editor e disse, sem piscar:

- Olha. Eu não agüento mais isso, essas entrevistas sem sentido. Eu quero ser levado a sério aqui dentro.

Os olhos do editor brilharam. Ele tinha uma pauta que só estava esperando alguém se destacar.

- Olha Leitão, eu tenho a matéria certa para você.

- Trabalho sério?

- Muito sério. Existe um jovem que é exatamente como você. Ele é desafiador e inovador, e tudo que ele quer é ser levado a sério, assim como você.

- Olha só, vou poder fazer a diferença, mudar a cabeça das pessoas e transformar este jornal em uma ferramenta de amor e aceitação.

- Estou até vendo a manchete! Anderson Leitão entrevista o homem vestido de pirata.

- Você não me entendeu. Eu não vou entrevistar nenhum pirata.

- E não vai mesmo. Ele não é um pirata. É só um homem comum que se veste de pirata e quer ser aceito por esse mundo. Uma alma incompreendida, assim como a sua.

- Nossa, faz toda a diferença. Era exatamente isso que eu queria quando entrei aqui. Não sei nem como lhe agradecer chefe – disse Anderson tentando soar o mais sarcástico que conseguisse. Tentando, mas não conseguindo.

- Não precisa agradecer nada.

E depois disso, com seu espírito arrasado, Anderson Leitão partiu para entrevistar o homem vestido de pirata.

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Aug 02 2008

Entrevista com a pedra

Published by Nigel Goodman under Anderson Leitão

Anderson Leitão está longe de ganhar qualquer tipo de prêmio jornalístico. Na realidade o rapaz que opera a máquina copiadora salvou a vida de uma senhora outro dia, na hora do almoço, e acabou ganhando uma medalha em algum tipo de solenidade no corpo de bombeiros. Anderson Leitão foi escalado para cobrir esta solenidade. Ele chorou durante a solenidade. Muitas pessoas, inclusive o rapaz da copiadora, acharam Leitão um cara muito legal, sensível, mas legal, por ter se deixado emocionar. Na verdade Anderson estava achando tudo aquilo um saco e quando pensou na sua carreira nos últimos 15 anos não agüentou e chorou. Anderson Leitão tinha o dom de ser bem interpretado pelas pessoas.

Na última reunião, como sempre, ninguém gostou de suas idéias. Desmascarar políticos? Investigar esquemas de prostituição infantil? Coisa ruim, coisa pesada. Hoje em dia ninguém mais quer saber de coisa ruim. O negócio agora é lei da atração, ou seja lá o que for. Hoje em dia as pessoas querem ler matérias divertidas. Anderson Leitão vai entrevistar uma pedra.

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Jul 30 2008

Entrevista com o vampiro

Published by Nigel Goodman under Anderson Leitão

O repórter desceu do carro puto. Enquanto tem gente cobrindo guerras e ganhando prêmios ele continua sendo escalado para escrever matérias de comportamento e curiosidades. Desta vez fora escalado para entrevistar um vampiro e já estava contando os dias até ser enviado para conversar com uma pedra.

Anderson Leitão não estranhou nem um pouco a decoração de seda preta no quarto de hotel. Ele cumprimentou o vampiro com um aperto de mãos e rapidamente sacou seu gravador e um bloco de anotações.

- Podemos começar logo?

- Muito ansioso para entrevistar um vampiro?

- Será o ponto alto da minha carreira – disse Leitão sorrindo. Na verdade havia sido um comentário sarcástico, mas Leitão não era bom sendo sarcástico e normalmente era tido como uma pessoa muito simpática e querida.

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