Archive for the 'Armandinho' Category

Aug 12 2009

Armandinho 8

Published by Nigel Goodman under Armandinho

Armandinho foi carregado até uma pequena cabine onde havia uma maca no canto, uma mesa cheia de papeis e um computador antigo, um armário com alguns frascos e um pequeno carrinho com equipamentos cirúrgicos.

Armandinho foi colocado na maca e deixado lá. Não havia nenhum sinal do doutor, possível pai de Armandinho.

A espera pelo doutor, que não passou de alguns minutos, foi a mais terrível da vida de Armandinho. Apesar de tudo que havia passado até ali, de todo o sofrimento, da perda de seu olho, da proximidade que chegou da morte, aquele estava sendo o momento mais tenso até então. Armandinho tremia de nervoso. Em poucos momentos saberia o resultado de seu trabalho. Será que encontraria seu pai, ou será que havia desperdiçado sua vida inteira?

Quando o doutor pirata entrou no pequeno consultório Armandinho não pode acreditar no que seu olho via. O doutor era um homem barbado e descabelado e vestido como pirata, exatamente como Armandinho acreditava ser seu pai. As feições no rosto dos dois não eram parecidas, não tinham a mesma altura e enquanto Armandinho era mais magro e definido, o doutor era um homem troncudo. Tais diferenças se davam porque Armandinho havia puxado pela sua mãe, mas a semelhança entre seus cabelos e barbas rebeldes deixava claro para Armandinho que aquele era o seu pai.

Muitos não assumiriam um parentesco com outra pessoa baseando-se apenas no corte de cabelo e barba, mas de qualquer forma Armandinho estava certo. Seja por sorte, intuição, ou um conhecimento aprofundado de cabelo e barba – não importa -, Armandinho estava certo.

O velho médico pirata, por sua vez, não parecia estar reconhecendo Armandinho como seu filho desaparecido. Neste momento Armandinho falou:

- Papai!

Mas, infelizmente, Armandinho moveu os lábios, mas não saiu qualquer som de sua boca. Ele havia perdido a voz gritando mais cedo e agora não conseguiria contar para o homem na sua frente que ele era seu pai, e que ele, Armandinho, havia dedicado sua vida a encontrá-lo.

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Jul 17 2009

Armandinho 7

Published by Nigel Goodman under Armandinho

Este post, como a numeração supõe, faz parte de uma série. Eu recomendo muito que você leia os outros para conseguir entender a história.  Aqui você encontra o resto deste conto.

Piratas com jet skis vieram zunindo de todos os lados. Enquanto a baleia terminava de destroçar a lancha, Armandinho era levado ao grande barco pirata que estava ancorado ali perto.

Contrariando o que a maioria poderia pensar, Armandinho não desistiu. Em sua mente as coisas já não faziam mais sentido nenhum. Armandinho não sabia mais dizer se era um homem ou uma criança, ou quantos anos haviam passado desde que começara a procurar por seu pai. A angustia de uma busca de anos havia finalmente atingido a mente do nosso herói. Neste ponto Armandinho não passava de um espectador da própria vida, cooperando com tudo e sem saber se deveria ou não interagir com a realidade.

Os piratas chegaram com Armandinho no barco e em questão de minutos já estavam no convés, onde um pirata gordo que usava bóias de braço fazia perguntas à Armandinho.

- Eu vi você chamando a baleia! Como você fez aquilo? Você conversa com os animais, qual é o seu segredo?

Os piratas estavam sofrendo uma espécie de dilema. Normalmente eles torturariam seus sequestrados até conseguirem as respostas que precisavam, mas, neste caso em específico, alguns estavam receosos de que Armandinho pudesse enviar animais marinhos terríveis das profundezas para lhes atacar. Alguns acreditavam que, pelo simples fato de terem capturado um semideus, seriam amaldiçoados com tempestades sem fim.

Na realidade Armandinho era um homem desesperado pelo amor de um pai que nunca conheceu que, apesar de ter perdido um olho, teve muita sorte de conseguir chegar até ali. Esta descrição é muito diferente da descrição que você esperaria de um semideus. Mas os piratas não sabiam de toda a história de Armandinho e, baseando-se apenas pela sua aparência, ele realmente parecia um demônio surgido da boca do inferno. Estes piratas eram do tipo que respeitavam demônios surgidos da boca do inferno e por isso não estavam torturando Armandinho.

- Você não vai falar comigo? Você está zombando de mim? – O pirata gordo e de bóias continuava a pressionar Armandinho.

Armandinho estava delirando. Não havia nem compreendido as perguntas, mas a pressão da atenção dos piratas e a barulheira que se dava ao seu redor estavam o irritando. Armandinho respirou fundo e deu um grito estridente, daqueles que destrói a sua garganta e faz você perder a voz depois.

- Besta do inferno, você está tentando nos amaldiçoar! Ele está evocando os demônios das profundezas para devorarem nossas almas.

O pânico se espalhou e o caos tomou conta do convés. Alguns piratas pularam no mar, outros se preparavam para fugir com jet skis ou pequenas lanchas. Alguns piratas preparavam suas armas para enfrentar o exército do outro mundo que viriam em segundos.

Eis que no meio de toda a confusão surgiu o capitão pirata. O capitão era um homem alto e magro que vestia um terno preto, camisa branca e gravata vermelha. Ele carregava uma pasta de documentos na mão esquerda e vinha em direção à Armandinho.

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Jul 14 2009

Armandinho 6

Published by Nigel Goodman under Armandinho

Os dois piratas que haviam embarcado na lancha de Denis estavam prestes a perder a paciência, e, quando alguém com uma metralhadora está prestes a perder a paciência, talvez isso signifique que você deva fazer alguma coisa.

Infelizmente Armandinho não estava muito apto a fazer qualquer coisa naquele momento. Não estava apto, mas isso não quer dizer que não fez. Ele acabou fazendo alguma coisa que salvou sua vida – claro que sim. Se não tivesse feito esta não seria a história de um homem que sofreu o sofrimento mais cruel, o sofrimento de viver a vida sem conhecer o próprio pai. Esta de fato é a história de um homem que venceu o desafio de não ter um olho e fez coisas incríveis se alimentando do sonho de que encontraria seu pai. Esse não é o conto de um mergulhador de meia idade e sua lancha.

Um dos piratas – o musculoso que só vestia uma sunga – apontou sua metralhadora para Armandinho.

- Rapaz, você está chorando e gritando pelo seu pai, mas você tem que entender que nós somos piratas, nós precisamos voltar com esta lancha para o nosso barco. É assim que a gente ganha a vida.

- E essa é uma lancha bem cara – completou o outro pirata.

- Nós não temos motivo para matarmos você, preferimos que você pule no mar. Realmente preferimos que você pule no mar…

Neste momento Denis agarrou seu equipamento de mergulho e se jogou no mar.

- Seu amigo entendeu o que eu quis dizer.

- Entende? Ele pulou no mar e isso significa que ele não vai levar um tiro na cara.

- Se você pular no mar a gente não precisa matar você e jogá-lo no mar depois.

- Porque, não sei se deu para perceber, você vai parar no mar de qualquer jeito.

Neste momento Armandinho enlouqueceu de vez. Ficou biruta. Tão biruta que deu um grito sem qualquer motivo aparente. Um grito gutural e aterrorizante, seguido por:

- Papai!

Os piratas se encheram de vez. Apontaram as metralhadoras para Armandinho e estavam prontos a atirar quando foram interrompidos pela lancha que aparentemente resolvera sair voando.

Não se trata de uma lancha voadora, eu garanto. O movimento súbito da embarcação foi causado por uma baleia enfurecida.

Era a mesma baleia que já havia encalhado, servido de transporte para um homem desesperado que colocava todas as suas forças em encontrar o seu pai e, se tudo isso não bastasse, estavam jogando cadáveres exatamente onde ela planejava se acasalar e isto estava arruinando o clima.

A baleia resolvera que iria acabar com aquela palhaçada destruindo a lancha.

De perto pode ter parecido que a lancha havia saído voando, mas de longe, mais especificamente de certo barco pirata, parecia que Armandinho havia evocado um monstro marinho para se defender.

- Aquele homem acabou de ordenar que uma baleia atacasse a lancha. Como será que ele fez isso? – Perguntou um dos piratas que observava o ataque, mas só por perguntar.

- Aposto que nós ganharíamos alguma espécie de recompensa se trouxéssemos um homem que se comunica com baleias para o capitão.

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Jul 04 2009

Armandinho 5

Published by Nigel Goodman under Armandinho, Contos

Denis salvou Armandinho, nosso herói, garoto humilde que nunca conheceu seu pai e agora o procura pelo mundo. Denis salvou Armandinho e o levou à sua lancha.

- Rapaz, você está bem?

- Eu não conheço meu pai.

- Meu Deus, o que aconteceu com o seu olho?

- Meu olho caiu, mas não tive maiores complicações.

- Você precisa encontrar um médico.

- Preciso. Preciso encontrar um médico. Você é a primeira pessoa que me entende.

- Eu vou dar a volta com o barco e em uns vinte…

- Não. Meu pai não está em terra.

- A gente pode ligar para o seu pai do hospital para ele voltar.

- Meu pai não tem telefone.

- Olha, para alguém que não tem olho, quase morreu amarrado em uma baleia e parece estar delirando, você parece estar muito bem.

- A minha maior ferida é a ferida no meu coração.

- Rapaz, isso bateu no fundo da alma.

Houve um breve momento em que os dois pareciam se entender, mas Armandinho era um homem focado em seu objetivo.

- Desce do barco.

- Ok, mas só porque você é assustador.

- Oi, será que a gente não pode pensar em outra saída? – Disse o velho executivo.

- Olha, quando um homem sem olho que está procurando o pai me manda fazer alguma coisa eu normalmente faço.

- Eu não vou sair deste barco, o que ele pode fazer?

Talvez Armandinho não pudesse fazer nada, mas o terrível barco pirata que se aproximava provavelmente traria algum argumento mais convincente para abandonar os tripulantes da lancha no mar.

- Papai – disse armandinho enquanto procurava em seus bolsos por seu olho.

O barco pirata não era como um barco pirata que você imaginaria. Era um grande barco moderno, mas com pessoas segurando metralhadoras e gritando coisas ofensivas. Não havia nenhuma bandeira pirata, e isso desapontou Armandinho um pouco.

Dois piratas desceram em um pequeno barco e vieram em direção à lancha. A direção do vento mudou neste momento, ou possivelmente foi só impressão. Os piratas encostaram na lancha e subiram.

- Vocês querem morrer?

- Acho que eles querem morrer sim – disse o segundo pirata.

- É eles tem cara de que querem morrer, mas talvez eles mudem de ideia.

- Nós não queremos morrer – respondeu o executivo.

O primeiro pirata, que era um jovem de 37 anos – na verdade ele não era tão jovem, mas como ele andava com piratas e não tinha muita barba, se passava por mais jovem para enganar as meninas -, apontou sua metralhadora para o executivo e gritou:

- O que você disse?

- Eu não quero morrer! – O executivo começou a chorar neste momento.

- Ah, eu entendi que vocês queriam morrer.

- Eu também achei que eles queriam morrer – completou o segundo pirata, um homem musculoso que vestia apenas uma sunga.

Armandinho não havia prestado atenção em nada disso. Ele estava hipnotizado pelo barco pirata. Sua mente fervilhava imaginando como seria o encontro com seu pai. Será que ele ainda se lembrava que tinha um filho? Vai ver ele teve outro filho e não precisava mais de um filho velho. Armandinho sentiu medo pela primeira vez.

- Homem assustador, faça alguma coisa – pediu o executivo, mas Armandinho não fez nada. Nada além de chorar.

- Ei, não faz isso, não é pra chorar. Não chorem. A gente só quer roubar vocês e voltar para o navio. Nós não vamos matar ninguém de verdade… A não ser que a gente mude de ideia, porque nós somos piratas maus.

- É, a gente realmente não se importa.

- A gente não se importa.

- É, vamos matar vocês agora.

Os piratas atiraram contra o casal de executivos que ainda tiveram tempo de se arrepender do pacote de turismo que contrataram antes de morrer.

- Quem quer morrer agora?

- Eu quero meu papai – disse Armandinho.

Armandinho estava delirando, estava achando que era criança mais uma vez.

- Porque esse cara é tão estranho? – Perguntou o primeiro pirata.

- Eu encontrei ele assim. Acho que ele é alguma espécie de jovem que perdeu o olho e descobriu que seu pai não é seu pai, e que nunca conheceu o verdadeiro pai, por isso ele procurou por todos os lugares e acabou enlouquecendo. Ele enlouqueceu e acredita que seu pai é alguma espécie de médico pirata que pode recolocar seu olho. – Você precisa reconhecer que Denis era bom em ler as pessoas.

Os piratas se entreolharam. Em seu navio havia um médico-cirurgião-oftamologista que também parecia um mendigo. “Mas será?”

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Apr 21 2009

Armandinho 4

Published by Nigel Goodman under Armandinho

 Não existe jornada mais incrível que a do menino que largou tudo para encontrar o próprio pai. O que é mais inspirador em tudo isso é que ele nunca desistiu, nem mesmo quando perdeu um olho. Estamos falando de um menino caolho, que desafiou o mundo e fez o impossível para encontrar o próprio pai.

Bom, o que é impossível é impossível. Se você aceita o fato de alguém fazer uma coisa impossível assim, sem parar para refletir sobre a real impossibilidade do feito, você concorda que estamos diante de uma palavra inútil. Seria o impossível um sinônimo de possível? Ou seria o impossível um conceito relativo?

A aventura de um menino caolho de fato gerou o interesse de diversos filósofos. Muito se especulou, houve exaltação, mas, no fim, todos concordaram que o impossível não é algo que não pode ser feito, mas sim algo que só pode ser feito por um homem desesperado à procura de seu pai.

Sem se preocupar com o que os filósofos diziam a seu respeito Armandinho e a baleia seguiram oceano adentro. Armandinho estava montado na baleia, amarrado e olhando em direção ao horizonte em busca de um barco pirata.

A baleia nadava rente à superfície, batendo eventualmente com a calda na água e balançando Armandinho como um peão de rodeio. Ela se afastou da praia rapidamente, mas, assim que se deu por satisfeita com a profundidade do mar, mergulhou.

Não demorou mais do que alguns segundos para Armandinho se dar conta de que não poderia respirar de baixo d’água. Ele tentou se soltar das cordas, mas estavam muito apertadas. Ele puxou com força. Não conseguia se soltar de forma alguma. Imaginou como não havia previsto que isto eventualmente aconteceria. O que ele pensou que fosse acontecer? Achou que pilotaria a baleia como um jet ski?

“Maldita baleia, será que ela não percebe que eu não respiro de baixo d’água?” Pensou Armandinho. Mas, neste ponto, ele não poderia culpar a baleia, já que ela também não pretendia respirar de baixo d’água, pois, assim como Armandinho, também era um mamífero. Mas quem liga para a biologia quando está a um suspiro do fim, não é?

Armandinho enfiou a mão no bolso e segurou firme seu olho. Ele torceu o corpo e girou, sentiu que estava escorregando, se livrando das cordas, mas foi travado pela perna direita que continuava presa nas cordas.

Diferente de Armandinho que estava tendo um dia de azar, Denis o instrutor de mergulho estava tendo um dia de sorte. Ele havia levado um casal de executivos para mergulhar, coisa que por si só já garante uma boa remuneração. Quando ele percebeu que uma baleia iria passar por seu grupo de mergulho Denis sorriu. Baleias sempre geram gorjetas gordas.

O que para Denis era o sinal de uma gorjeta gorda, para o inconsciente Armandinho era o sinal de que viveria para encontrar o seu pai.

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Mar 25 2009

Armandinho 3

Published by Nigel Goodman under Armandinho

 - Vovô, vovô, quando você vai terminar a história?

- Que História?

- A história do nosso Pai.

- Ah! Claro que sim. Onde eu estava mesmo?

- Quando ele estava fugindo da polícia.

Armandinho havia matado um homem inocente e agora era procurado pela polícia. Para a sua sorte a polícia acabou o confundindo. Armandinho era um mendigo caolho, mas, como acontece em um telefone sem fio, uma patrulha se confundiu e prendeu um mendigo perneta em seu lugar.

Armandinho estava feliz. Fora procurado da polícia, mas acabou escapando por um triz. Se sentiu como um pirata. Se sentiu como seu pai. Seu único olho chorou. Muitos passavam por Armandinho neste momento, mas poucos conseguiram ver beleza em um mendigo caolho chorando. E a cena era realmente assustadora, comparável à uma baleia agonizando encalhada na praia. Horrível.

Quanto precisa sofrer uma pessoa para encontrar o próprio pai?

Armandinho estava desesperado, não poderia mais agüentar aquilo. Armandinho precisava se encontrar com o pai.

Armandinho resolveu mandar tudo para o inferno. Com um machado derrubou um coqueiro na praia durante a noite e com uma corda se amarrou nele. Depois se desamarrou e começou a pensar em um jeito de arrastar o coqueiro até a água para, então, se amarrar a ele novamente.

Alguns jovens de uma ONG chegaram cedo para ajudar algumas tartarugas que desovavam na água. Armandinho rapidamente os assustou com um pedaço de pau.

Mas tarde alguns velhos chegaram para jogar voley onde armandinho havia derrubado seu coqueiro. Armandinho estava dormindo e não percebeu enquanto os velhos empurravam o coqueiro. Como é de se esperar, os velhos não teriam motivo para empurrar o coqueiro até a água, logo não o fizeram, empurraram o tronco do coqueiro para o outro lado, 2 metros da lateral da quadra, e o suaram de banco.

Parecia o fim do sonho de Armandinho. E realmente era.

- Como assim vovô? Ele desistiu de procurar pelo senhor?

- Não. Ele só acordou.

Armandinho acordou e viu o que haviam feito com o seu tronco. Estava pronto para atacar os velhos com um pedaço de pau quando teve sua atenção desapertada por uma baleia que encalhava. Era sua chance.

Armandinho correu e, enquanto jovens de uma ONG ajudavam a desencalhar a baleia, ele se atou a ela com uma corda. Armandinho agora estava no mar e seria questão de tempo até encontrar com o seu pai.

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Jan 27 2009

Armandinho 2

Published by Nigel Goodman under Armandinho

 A busca por um pai pode ser uma aventura e tanto. Não é fácil, pode levar uma vida. Nada garante, também, que quando a busca terminar você terá aquilo que esperava. Muitas vezes seu pai é realmente um maucaráter e fugiu de casa pra foder com as vagabundas da rua. Muitas vezes é isso mesmo. Mas Armandinho sabia que seu caso era diferente. Sua verdade seria outra. Armandinho iria até o outro lado do mundo se fosse preciso encontrar seu pai, um pirata médico, que recolocará seu olho e lhe amará de verdade. Armandinho não vai desistir.

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Jan 11 2009

Armandinho

Published by Nigel Goodman under Armandinho, Contos

 Armandinho, jovem sem olho e sem pai, vive a vida dura de quem perde o olho e o pai e se vê obrigado a procurar pelos dois. Armandinho deve procurar pelo seu olho e por seu pai pelas ruas deste país enorme, quem sabe do mundo. Armandinho tem uma tarefa difícil pela sua frente. Não chore Armandinho. Armandinho tem a força de vontade do peixe salmão que nada contra a correnteza, e depois nada a favor dela de novo.

Armandinho não precisou ir muito longe para achar seu olho, esta é a realidade. Diferente de seu pai, que armadinho nunca conheceu, seu olho sempre ficou preso em sua cabeça e, mais uma vez diferente de seu pai, que já estava desaparecido a pelo menos 13 anos, idade de Armandinho, seu olho fora arrancado há pouco tempo. Seu olho estava caído junto ao seu pé esquerdo. Armandinho recolheu seu olho do chão e o enfiou de volta na cara. O olho não funcionou. Armandinho então o colocou no bolso e pensou que se seu pai fosse médico ele provavelmente poderia recolocar seu olho de uma forma que este funcionasse novamente. “Será que papai é médico?” Pensou armandinho.

Dias se passaram, seguidos por anos. Armandinho já era um adulto. Ele havia largado a escola para procurar o seu pai e agora vivia a vida de um andarilho. Vivia da boa vontade dos outros.

Armandinho fugiu de casa criança e passou alguns meses vagando sem rumo e sem um plano. Assim ele não teria qualquer êxito. Passou suas primeiras dificuldades sem baixar a cabeça. Com o tempo Armandinho passou a seguir pistas. Seu pai era um homem, no mínimo 13 anos mais velho que ele, e que havia morado em Vitória em 1996. Infelizmente grande parte da população de Vitória poderia ser pai de Armandinho e com isso os anos se passaram. Procurou também por cidades vizinhas e não tão vizinhas assim, até que um dia uma senhora lhe disse:

- Uma vez eu vi um homem caolho igual a você.

Armandinho percebeu que havia ignorado um fato obvio. Por serem pai e filho, ele seria então muito semelhante a seu pai. Armandinho se virou e olhou seu reflexo no vidro de um carro. Seu pai era igual a ele. Cabelos compridos e mal cuidados, uma barba emaranhada e caolho. Armandinho sentou na calçada e chorou. Seu pai era um pirata e nesse momento deveria estar em algum lugar em alto mar.

Apesar da conclusão de Armandinho ser um absurdo genético, ela não chagava a ser impossível, muito pelo contrário, Armandinho estava certo. Agora ele só precisaria de um barco.

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Jan 02 2009

Ano novo

Published by Nigel Goodman under Armandinho, Contos

Foi idéia de um pai de família comemorar o ano novo. Ele juntou toda a sua família em um velho Gurgel e dirigiu por 7 horas até o litoral capixaba. A viagem foi um verdadeiro inferno. As crianças gritaram o tempo todo, Armandinho quase perdeu um olho, sua mulher grávida parava de meia em meia hora para urinar. Foi um inferno mesmo.

A família chegou na praia e logo as crianças saíram correndo e se espalharam. A vó Célia correu atrás das mais novas para que elas não se afogassem. Prima Júlia se agarrou com uma garrafa de pinga e desapareceu. Parmezão e Chocolate, os primos funkeiros, ficaram junto do carro que agora tocava o pancadão no último volume. Armandinho perdeu um olho.

O pai de família por alguns momentos chegara a hesitar, mas agora estava confiante de que esta seria a melhor viagem em família da sua vida. Pegou o espumante e foi até um quiosque perguntar que horas eram. Eram 6 horas. Houve um erro de calculo em algum momento, isto é certo, mas 6 horas passam rápido e logo seria meia noite.

7:20 as crianças começaram a enjoar da praia. 5 crianças já tinham se afogado e o resto estava com medo de entrar no mar. Vó Célia já não tinha mais certeza de quantos netos tinha e não estranhou  falta de alguns. O importante é que as crianças sobreviventes queriam voltar e Armandinho realmente precisava ver um médico, mas o pai de família disse que não. Ele disse que todos precisavam esperar o ano novo, que era um momento mágico de confraternização, e que ninguém sairia de lá antes de meia noite.

Quando faltavam poucos segundos para a virada o pai começou uma contagem regressiva animado. Dez… Nove… Oito…

- O que vai acontecer quando chegar em zero?

- A gente grita e se abraça minha filha.

- Por que?

- Porque é ano novo.

- Mas o que tem de especial ser ano novo?

- Como assim o que tem de especial?

- É só uma meia noite qualquer.

- É ano novo! Eu vou estourar esse espumante aqui e tua mãe vai gritar um “ê” bem animado, você vai ver.

- Só isso?

- É. O que mais você queria?

- A prima tem razão Tio Beto – disse Parmezão. – O senhor criou a maior expectativa em todos.

- Eu mesmo estava achando que você ia se suicidar meia noite – completou Sandra, a mulher grávida.

- É mesmo pai. Nós estamos esperando uma grande surpresa – disse Armandinho, o menino caolho.

- Pai, que horas são?

- Puta que pariu! Meia noite e 5.

- Está vendo só. Já é ano novo e você nem percebeu. Que merda de comemoração pai. Nada de especial nessa porcaria de ano novo.

- No meu relógio ainda faltam 3 minutos – disse Chocolate.

- No meu faltam 7 – disse Sandra.

- Eu acertei o meu relógio pelo relógio do posto de gasolina gente.

- Mas o relógio do posto podia estar errado – interrompeu Armandinho.

- Será? Mas como vamos saber quando for ano novo?

- Pra que você quer saber essa estupidez? Não tem nada pra comemorar.

Nesse exato momento Prima Júlia, que tentava operar o bujão de gás para aquecer um lombo de porco na farofa, explodiu. Por um momento houve um silêncio mágico e todas as crianças sorriram. A felicidade tomou conta de todos, pois eles sabiam que era ano novo. O pai estourou o espumante e a família se abraçou.

- Eu te amo pai – disse Armandinho.

- Eu não sou teu pai.

Armandinho chorou com o olho que lhe restava.

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