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Armandinho foi colocado na maca e deixado lá. Não havia nenhum sinal do doutor, possível pai de Armandinho.
A espera pelo doutor, que não passou de alguns minutos, foi a mais terrível da vida de Armandinho. Apesar de tudo que havia passado até ali, de todo o sofrimento, da perda de seu olho, da proximidade que chegou da morte, aquele estava sendo o momento mais tenso até então. Armandinho tremia de nervoso. Em poucos momentos saberia o resultado de seu trabalho. Será que encontraria seu pai, ou será que havia desperdiçado sua vida inteira?
Quando o doutor pirata entrou no pequeno consultório Armandinho não pode acreditar no que seu olho via. O doutor era um homem barbado e descabelado e vestido como pirata, exatamente como Armandinho acreditava ser seu pai. As feições no rosto dos dois não eram parecidas, não tinham a mesma altura e enquanto Armandinho era mais magro e definido, o doutor era um homem troncudo. Tais diferenças se davam porque Armandinho havia puxado pela sua mãe, mas a semelhança entre seus cabelos e barbas rebeldes deixava claro para Armandinho que aquele era o seu pai.
Muitos não assumiriam um parentesco com outra pessoa baseando-se apenas no corte de cabelo e barba, mas de qualquer forma Armandinho estava certo. Seja por sorte, intuição, ou um conhecimento aprofundado de cabelo e barba – não importa -, Armandinho estava certo.
O velho médico pirata, por sua vez, não parecia estar reconhecendo Armandinho como seu filho desaparecido. Neste momento Armandinho falou:
- Papai!
Mas, infelizmente, Armandinho moveu os lábios, mas não saiu qualquer som de sua boca. Ele havia perdido a voz gritando mais cedo e agora não conseguiria contar para o homem na sua frente que ele era seu pai, e que ele, Armandinho, havia dedicado sua vida a encontrá-lo.
- Cuidado com essa garganta, isso aí não está parecendo nada bom. Nada bom mesmo. E olha só para esse olho.
Armandinho colocou a mão no bolso e tirou seu olho.
- Olha rapaz, esse é o olho mais podre que eu já vi na minha vida. Não sei o que você esperava que fosse acontecer quando resolveu carregar esse olho por aí no seu bolso, mas isso não tem mais jeito não.
Armandinho esperava encontrar seu pai, um médico pirata, que colocaria seu olho de volta no lugar e o amaria para sempre, mas aparentemente as coisas não estavam indo muito bem para o lado de Armandinho.
- Se existe alguém nesse mundo capaz de colocar meu olho de volta esse alguém é você papai – foi o que Armandinho tentou dizer, mas só o que se ouviu foi um assobio irritante.
- Muito bem garoto, você pode escolher entre olho de vidro ou enxerto de carne para tapar esse buraco. Me explica uma coisa, como foi que você não infeccionou e morreu? Olha só para esse buracão aberto na sua cara. Tudo bem que essa crosta de sangue preto disfarça um pouco, mas tirando ela você tem um buraco gigante no meio da cara. Isso não é saudável.
Armandinho estava irritadíssimo. Seu pai não era tão incrível como ele imaginava. Armandinho estava tão desapontado que começou a questionar se procurar seu pai tinha sido uma boa coisa a se fazer. O problema de fazer tais questionamentos é que, no caso de Armandinho, eram questionamentos fatais.
Armandinho só estava vivo, pois sua força de vontade o mantinha vivo. Armandinho estava tão focado em sua busca, tão determinado a encontrar o seu pai, que não tinha tempo nem de morrer. Quando Armandinho questionou tudo isso, como se atingido por um raio ele teve uma convulsão e caiu inerte.
- Está vendo só. Eu tinha certeza que andar com um buraco desses na cara não era uma coisa saudável. Agora que você morreu tudo faz mais sentido.
O médico se preparava para queimar o corpo quando resolveu olhar mais uma vez para Armandinho. Pegou o olho podre do chão e depois resolveu compará-lo com o olho bom de Armandinho. Depois resolveu compará-lo com o seu próprio olho, e nesse momento algo mágico aconteceu.
O doutor percebeu que tinha a mesma cor de olho que Armandinho, e foi então que reparou a barba e o cabelo do filho, em seguida suas unhas do pé. O doutor percebeu que aquilo só podia significar que era o pai daquele jovem.
Seus anos de experiência médica o tornaram capaz de realizar um teste de DNA a olho nu, e então confirmou o que já sabia.
O doutor pirata rapidamente cuspiu no rosto do filho e esfregou pegou uma flanela para tirar toda a sujeira do machucado. Com a ponta dos dedos pinçou a ponta do nervo óptico e o atou à ponta que estava presa ao olho podre com um nó bem dado. O médico forçou o lho de volta dentro do crânio de Armandinho e com uma faca abriu um buraco no seu peito. O doutor enfiou sua mão no peito do filho e apertou seu coração com força, fazendo com que voltasse a bater.
Como nos sonhos de Armandinho, seu pai o havia salvado e recolocado seu olho. O pai de Armandinho, por mais que nunca tenha ouvido falar no seu filho, já o amava profundamente. Armandinho havia seguido em frente quando o universo parecia querer que ele desistisse. Armandinho havia matado um homem, se amarrado a uma baleia, enfrentado piratas, feito de tudo para encontrar seu pai. Agora ele tinha sua recompensa, uma vida feliz ao lado do seu pai. Armandinho conseguiu!
Infelizmente os momentos que Armandinho passou morto deixaram seqüelas terríveis, mas nem tudo é perfeito.
]]>Este post, como a numeração supõe, faz parte de uma série. Eu recomendo muito que você leia os outros para conseguir entender a história. Aqui você encontra o resto deste conto.
Piratas com jet skis vieram zunindo de todos os lados. Enquanto a baleia terminava de destroçar a lancha, Armandinho era levado ao grande barco pirata que estava ancorado ali perto.
Contrariando o que a maioria poderia pensar, Armandinho não desistiu. Em sua mente as coisas já não faziam mais sentido nenhum. Armandinho não sabia mais dizer se era um homem ou uma criança, ou quantos anos haviam passado desde que começara a procurar por seu pai. A angustia de uma busca de anos havia finalmente atingido a mente do nosso herói. Neste ponto Armandinho não passava de um espectador da própria vida, cooperando com tudo e sem saber se deveria ou não interagir com a realidade.
Os piratas chegaram com Armandinho no barco e em questão de minutos já estavam no convés, onde um pirata gordo que usava bóias de braço fazia perguntas à Armandinho.
- Eu vi você chamando a baleia! Como você fez aquilo? Você conversa com os animais, qual é o seu segredo?
Os piratas estavam sofrendo uma espécie de dilema. Normalmente eles torturariam seus sequestrados até conseguirem as respostas que precisavam, mas, neste caso em específico, alguns estavam receosos de que Armandinho pudesse enviar animais marinhos terríveis das profundezas para lhes atacar. Alguns acreditavam que, pelo simples fato de terem capturado um semideus, seriam amaldiçoados com tempestades sem fim.
Na realidade Armandinho era um homem desesperado pelo amor de um pai que nunca conheceu que, apesar de ter perdido um olho, teve muita sorte de conseguir chegar até ali. Esta descrição é muito diferente da descrição que você esperaria de um semideus. Mas os piratas não sabiam de toda a história de Armandinho e, baseando-se apenas pela sua aparência, ele realmente parecia um demônio surgido da boca do inferno. Estes piratas eram do tipo que respeitavam demônios surgidos da boca do inferno e por isso não estavam torturando Armandinho.
- Você não vai falar comigo? Você está zombando de mim? – O pirata gordo e de bóias continuava a pressionar Armandinho.
Armandinho estava delirando. Não havia nem compreendido as perguntas, mas a pressão da atenção dos piratas e a barulheira que se dava ao seu redor estavam o irritando. Armandinho respirou fundo e deu um grito estridente, daqueles que destrói a sua garganta e faz você perder a voz depois.
- Besta do inferno, você está tentando nos amaldiçoar! Ele está evocando os demônios das profundezas para devorarem nossas almas.
O pânico se espalhou e o caos tomou conta do convés. Alguns piratas pularam no mar, outros se preparavam para fugir com jet skis ou pequenas lanchas. Alguns piratas preparavam suas armas para enfrentar o exército do outro mundo que viriam em segundos.
Eis que no meio de toda a confusão surgiu o capitão pirata. O capitão era um homem alto e magro que vestia um terno preto, camisa branca e gravata vermelha. Ele carregava uma pasta de documentos na mão esquerda e vinha em direção à Armandinho.
- Jovem, posso saber por que você está aterrorizando minha tripulação?
Em resposta Armandinho deu outro grito, mas muito mais rouco que o primeiro.
- Estou entendendo. – O capitão olhou em volta e perguntou a um pirata que cogitava em fincar uma faca no coração de Armandinho – por que exatamente a gente o trouxe a bordo?
- Ele tem o controle sobre todas as criaturas do mar…
- Eu acho isso bem difícil de acreditar.
- Capitão, ele é filho do próprio Lúcifer. Eu vi com meus próprios olhos quando ele ordenou que os tubarões atacassem um exército dos nossos homens e que as gaivotas defecassem em nossas crianças.
- Marquinhos, você sabe que não tem nenhuma criança a bordo do nosso barco.
- A besta engoliu nossas crianças…
- Você percebe que trouxeram um homem alucinando a bordo e se assustaram sozinhos?
- Percebo sim senhor.
Os piratas pouco a pouco iam se acalmando enquanto a notícia de que eles eram idiotas se espalhava pelo boca a boca.
- Rapaz – disse o capitão a Armandinho -, você pode me explicar o que aconteceu com você? Foi um dos meus homens que arrancou o seu olho?
Armandinho deu outro grito, mas desta vez ele estava tão rouco que parecia um assobio. Mesmo assim um pirata que não estava muito convencido com a história de que havia se assustado sozinho acreditou que aquele grito fino e fraco era na verdade linguagem dos demônios e se matou com um tiro na cara.
- A gente precisa fazer alguma coisa em relação a esses gritos. Isso está acabando com o ânimo dos rapazes. E eu estou pensando em sequestrar um psicólogo para ajudar vocês.
- Capitão o que a gente faz com o filho do demônio? Cortamos a cabeça dele e jogamos no mar?
- E por que a gente faria uma coisa dessas? Por diversão? Claro que é divertido cortar a cabeça de uma pessoa e jogá-la no mar. Eu mesmo já matei muitas pessoas assim. Mas como no mínimo dez dos meus homens fugiram ou se mataram, acho melhor escravizarmos ele e pormos ele para limpar essa sujeira que está esta embarcação.
Armandinho deu outro grito alucinado, que desta vez soou como um soluço.
- Alguém leva esse homem para ser examinado pelo doutor.
Ao ouvir as palavras doutor Armandinho sai do seu transe. Ele foi aos poucos refletindo sobre os últimos acontecimentos e entendeu que estava prestes de descobrir a verdade. Em pouco tempo ele estaria de frente para o homem que poderia ser o seu pai.
]]>Infelizmente Armandinho não estava muito apto a fazer qualquer coisa naquele momento. Não estava apto, mas isso não quer dizer que não fez. Ele acabou fazendo alguma coisa que salvou sua vida – claro que sim. Se não tivesse feito esta não seria a história de um homem que sofreu o sofrimento mais cruel, o sofrimento de viver a vida sem conhecer o próprio pai. Esta de fato é a história de um homem que venceu o desafio de não ter um olho e fez coisas incríveis se alimentando do sonho de que encontraria seu pai. Esse não é o conto de um mergulhador de meia idade e sua lancha.
Um dos piratas – o musculoso que só vestia uma sunga – apontou sua metralhadora para Armandinho.
- Rapaz, você está chorando e gritando pelo seu pai, mas você tem que entender que nós somos piratas, nós precisamos voltar com esta lancha para o nosso barco. É assim que a gente ganha a vida.
- E essa é uma lancha bem cara – completou o outro pirata.
- Nós não temos motivo para matarmos você, preferimos que você pule no mar. Realmente preferimos que você pule no mar…
Neste momento Denis agarrou seu equipamento de mergulho e se jogou no mar.
- Seu amigo entendeu o que eu quis dizer.
- Entende? Ele pulou no mar e isso significa que ele não vai levar um tiro na cara.
- Se você pular no mar a gente não precisa matar você e jogá-lo no mar depois.
- Porque, não sei se deu para perceber, você vai parar no mar de qualquer jeito.
Neste momento Armandinho enlouqueceu de vez. Ficou biruta. Tão biruta que deu um grito sem qualquer motivo aparente. Um grito gutural e aterrorizante, seguido por:
- Papai!
Os piratas se encheram de vez. Apontaram as metralhadoras para Armandinho e estavam prontos a atirar quando foram interrompidos pela lancha que aparentemente resolvera sair voando.
Não se trata de uma lancha voadora, eu garanto. O movimento súbito da embarcação foi causado por uma baleia enfurecida.
Era a mesma baleia que já havia encalhado, servido de transporte para um homem desesperado que colocava todas as suas forças em encontrar o seu pai e, se tudo isso não bastasse, estavam jogando cadáveres exatamente onde ela planejava se acasalar e isto estava arruinando o clima.
A baleia resolvera que iria acabar com aquela palhaçada destruindo a lancha.
De perto pode ter parecido que a lancha havia saído voando, mas de longe, mais especificamente de certo barco pirata, parecia que Armandinho havia evocado um monstro marinho para se defender.
- Aquele homem acabou de ordenar que uma baleia atacasse a lancha. Como será que ele fez isso? – Perguntou um dos piratas que observava o ataque, mas só por perguntar.
- Aposto que nós ganharíamos alguma espécie de recompensa se trouxéssemos um homem que se comunica com baleias para o capitão.
]]>
- Rapaz, você está bem?
- Eu não conheço meu pai.
- Meu Deus, o que aconteceu com o seu olho?
- Meu olho caiu, mas não tive maiores complicações.
- Você precisa encontrar um médico.
- Preciso. Preciso encontrar um médico. Você é a primeira pessoa que me entende.
- Eu vou dar a volta com o barco e em uns vinte…
- Não. Meu pai não está em terra.
- A gente pode ligar para o seu pai do hospital para ele voltar.
- Meu pai não tem telefone.
- Olha, para alguém que não tem olho, quase morreu amarrado em uma baleia e parece estar delirando, você parece estar muito bem.
- A minha maior ferida é a ferida no meu coração.
- Rapaz, isso bateu no fundo da alma.
Houve um breve momento em que os dois pareciam se entender, mas Armandinho era um homem focado em seu objetivo.
- Desce do barco.
- Ok, mas só porque você é assustador.
- Oi, será que a gente não pode pensar em outra saída? – Disse o velho executivo.
- Olha, quando um homem sem olho que está procurando o pai me manda fazer alguma coisa eu normalmente faço.
- Eu não vou sair deste barco, o que ele pode fazer?
Talvez Armandinho não pudesse fazer nada, mas o terrível barco pirata que se aproximava provavelmente traria algum argumento mais convincente para abandonar os tripulantes da lancha no mar.
- Papai – disse armandinho enquanto procurava em seus bolsos por seu olho.
O barco pirata não era como um barco pirata que você imaginaria. Era um grande barco moderno, mas com pessoas segurando metralhadoras e gritando coisas ofensivas. Não havia nenhuma bandeira pirata, e isso desapontou Armandinho um pouco.
Dois piratas desceram em um pequeno barco e vieram em direção à lancha. A direção do vento mudou neste momento, ou possivelmente foi só impressão. Os piratas encostaram na lancha e subiram.
- Vocês querem morrer?
- Acho que eles querem morrer sim – disse o segundo pirata.
- É eles tem cara de que querem morrer, mas talvez eles mudem de ideia.
- Nós não queremos morrer – respondeu o executivo.
O primeiro pirata, que era um jovem de 37 anos – na verdade ele não era tão jovem, mas como ele andava com piratas e não tinha muita barba, se passava por mais jovem para enganar as meninas -, apontou sua metralhadora para o executivo e gritou:
- O que você disse?
- Eu não quero morrer! – O executivo começou a chorar neste momento.
- Ah, eu entendi que vocês queriam morrer.
- Eu também achei que eles queriam morrer – completou o segundo pirata, um homem musculoso que vestia apenas uma sunga.
Armandinho não havia prestado atenção em nada disso. Ele estava hipnotizado pelo barco pirata. Sua mente fervilhava imaginando como seria o encontro com seu pai. Será que ele ainda se lembrava que tinha um filho? Vai ver ele teve outro filho e não precisava mais de um filho velho. Armandinho sentiu medo pela primeira vez.
- Homem assustador, faça alguma coisa – pediu o executivo, mas Armandinho não fez nada. Nada além de chorar.
- Ei, não faz isso, não é pra chorar. Não chorem. A gente só quer roubar vocês e voltar para o navio. Nós não vamos matar ninguém de verdade… A não ser que a gente mude de ideia, porque nós somos piratas maus.
- É, a gente realmente não se importa.
- A gente não se importa.
- É, vamos matar vocês agora.
Os piratas atiraram contra o casal de executivos que ainda tiveram tempo de se arrepender do pacote de turismo que contrataram antes de morrer.
- Quem quer morrer agora?
- Eu quero meu papai – disse Armandinho.
Armandinho estava delirando, estava achando que era criança mais uma vez.
- Porque esse cara é tão estranho? – Perguntou o primeiro pirata.
- Eu encontrei ele assim. Acho que ele é alguma espécie de jovem que perdeu o olho e descobriu que seu pai não é seu pai, e que nunca conheceu o verdadeiro pai, por isso ele procurou por todos os lugares e acabou enlouquecendo. Ele enlouqueceu e acredita que seu pai é alguma espécie de médico pirata que pode recolocar seu olho. – Você precisa reconhecer que Denis era bom em ler as pessoas.
Os piratas se entreolharam. Em seu navio havia um médico-cirurgião-oftamologista que também parecia um mendigo. “Mas será?”
]]>Bom, o que é impossível é impossível. Se você aceita o fato de alguém fazer uma coisa impossível assim, sem parar para refletir sobre a real impossibilidade do feito, você concorda que estamos diante de uma palavra inútil. Seria o impossível um sinônimo de possível? Ou seria o impossível um conceito relativo?
A aventura de um menino caolho de fato gerou o interesse de diversos filósofos. Muito se especulou, houve exaltação, mas, no fim, todos concordaram que o impossível não é algo que não pode ser feito, mas sim algo que só pode ser feito por um homem desesperado à procura de seu pai.
Sem se preocupar com o que os filósofos diziam a seu respeito Armandinho e a baleia seguiram oceano adentro. Armandinho estava montado na baleia, amarrado e olhando em direção ao horizonte em busca de um barco pirata.
A baleia nadava rente à superfície, batendo eventualmente com a calda na água e balançando Armandinho como um peão de rodeio. Ela se afastou da praia rapidamente, mas, assim que se deu por satisfeita com a profundidade do mar, mergulhou.
Não demorou mais do que alguns segundos para Armandinho se dar conta de que não poderia respirar de baixo d’água. Ele tentou se soltar das cordas, mas estavam muito apertadas. Ele puxou com força. Não conseguia se soltar de forma alguma. Imaginou como não havia previsto que isto eventualmente aconteceria. O que ele pensou que fosse acontecer? Achou que pilotaria a baleia como um jet ski?
“Maldita baleia, será que ela não percebe que eu não respiro de baixo d’água?” Pensou Armandinho. Mas, neste ponto, ele não poderia culpar a baleia, já que ela também não pretendia respirar de baixo d’água, pois, assim como Armandinho, também era um mamífero. Mas quem liga para a biologia quando está a um suspiro do fim, não é?
Armandinho enfiou a mão no bolso e segurou firme seu olho. Ele torceu o corpo e girou, sentiu que estava escorregando, se livrando das cordas, mas foi travado pela perna direita que continuava presa nas cordas.
Diferente de Armandinho que estava tendo um dia de azar, Denis o instrutor de mergulho estava tendo um dia de sorte. Ele havia levado um casal de executivos para mergulhar, coisa que por si só já garante uma boa remuneração. Quando ele percebeu que uma baleia iria passar por seu grupo de mergulho Denis sorriu. Baleias sempre geram gorjetas gordas.
O que para Denis era o sinal de uma gorjeta gorda, para o inconsciente Armandinho era o sinal de que viveria para encontrar o seu pai.
]]>- Que História?
- A história do nosso Pai.
- Ah! Claro que sim. Onde eu estava mesmo?
- Quando ele estava fugindo da polícia.
Armandinho havia matado um homem inocente e agora era procurado pela polícia. Para a sua sorte a polícia acabou o confundindo. Armandinho era um mendigo caolho, mas, como acontece em um telefone sem fio, uma patrulha se confundiu e prendeu um mendigo perneta em seu lugar.
Armandinho estava feliz. Fora procurado da polícia, mas acabou escapando por um triz. Se sentiu como um pirata. Se sentiu como seu pai. Seu único olho chorou. Muitos passavam por Armandinho neste momento, mas poucos conseguiram ver beleza em um mendigo caolho chorando. E a cena era realmente assustadora, comparável à uma baleia agonizando encalhada na praia. Horrível.
Quanto precisa sofrer uma pessoa para encontrar o próprio pai?
Armandinho estava desesperado, não poderia mais agüentar aquilo. Armandinho precisava se encontrar com o pai.
Armandinho resolveu mandar tudo para o inferno. Com um machado derrubou um coqueiro na praia durante a noite e com uma corda se amarrou nele. Depois se desamarrou e começou a pensar em um jeito de arrastar o coqueiro até a água para, então, se amarrar a ele novamente.
Alguns jovens de uma ONG chegaram cedo para ajudar algumas tartarugas que desovavam na água. Armandinho rapidamente os assustou com um pedaço de pau.
Mas tarde alguns velhos chegaram para jogar voley onde armandinho havia derrubado seu coqueiro. Armandinho estava dormindo e não percebeu enquanto os velhos empurravam o coqueiro. Como é de se esperar, os velhos não teriam motivo para empurrar o coqueiro até a água, logo não o fizeram, empurraram o tronco do coqueiro para o outro lado, 2 metros da lateral da quadra, e o suaram de banco.
Parecia o fim do sonho de Armandinho. E realmente era.
- Como assim vovô? Ele desistiu de procurar pelo senhor?
- Não. Ele só acordou.
Armandinho acordou e viu o que haviam feito com o seu tronco. Estava pronto para atacar os velhos com um pedaço de pau quando teve sua atenção desapertada por uma baleia que encalhava. Era sua chance.
Armandinho correu e, enquanto jovens de uma ONG ajudavam a desencalhar a baleia, ele se atou a ela com uma corda. Armandinho agora estava no mar e seria questão de tempo até encontrar com o seu pai.
]]>
Se seu pai é um pirata Armandinho vai precisar ir para o mar, mas Armandinho não entende nada de barcos e piratas e navegação, nada. Armandinho vaga perdido como um barquinho de papel navegando na imensidão do universo esperando pela brisa que lhe sopre em direção ao seu destino. Se pelo menos Armandinho conhecesse um pirata tudo seria mais fácil.
Os anos que passou na rua comendo a comida do lixo e bebendo a água das chuvas estavam se voltando contra Armandinho. Seriam alucinações? Sua mente estaria lhe pregando peças? Provavelmente sim. Fato é que Armandinho estava vendo o espírito de uma mulher lhe acenando de longe. Armandinho correu até a mulher, que na realidade não era um espírito ou uma alucinação. Na realidade ela não estava acenando para Armandinho, ela estava acenando para o homem que vinha atrás dele, Anderson Leitão, mas armandinho não sabia disso.
- Você abanou seu braço para mim espírito maligno, diga suas palavras.
- Oi, eu não estava abanando para você…
- Maldição mulher! Eu vi você abanando para mim. Que diabos de jogos mentais são estes com os quais você me atenta?
- Eu realmente estava abanando para o meu amigo, logo atrás de você.
- Ela estava abanando para mim, realmente – disse Anderson Leitão, que estava visivelmente chateado com o contratempo.
- Olha rapaz. Você pode amaldiçoar sua vida o quanto você quiser, mas depois, agora eu vou tirar as palavras da boca desta aparição maligna.
- Você percebe que está delirando um pouco? – Anderson Leitão por um momento sentiu como se estivesse trabalhando.
- Você também estaria se tivesse perdido um pai.
- Você perdeu seu pai?
- Passei a vida inteira procurando por ele.
- Você sabe o que aconteceu com ele?
- Foi atraído ao inferno por este espírito maligno, que agora tenta me seduzir para as profundezas também.
A mulher não chegou a dizer nada. A maioria das pessoas não sabe como reagir quando algum mendigo lhe confunde com uma entidade sobrenatural, e por tanto não reage de forma alguma. A pessoa normalmente fica parada, com a cara inexpressiva, esperando um desfecho e tentando se lembrar de tudo para contar para um amigo pelo celular mais tarde. A mulher estava exatamente assim quando levou um soco na cara de Armandinho.
- Puta que me pariu. – Anderson Leitão não podia acreditar.
- Não sabia que ela era mãe.
- Ela não… Deixa pra lá.
- Você é o filho de uma aparição. Você é meio demônio. – Armandinho estava com um olhar ameaçador de mendigo louco. – Onde está o meu pai?
- Olha, eu não sei quem é o seu pai.
- Meu pai é um pirata médico.
- O único pirata que eu conheço é bacharel em letras.
- Você me apresentaria ele.
- Cara, você acabou de dar um soco na minha amiga.
Armandinho chutou a cabeça da mulher caída
- Eu vejo que você se preocupa com esse espírito maligno. Me leve ao meu pai que eu lhe entregarei esta alma perdida. Me dê meu pai que eu lhe darei sua mãe.
- Eu estou chamando a polícia.
Armandinho não pode ser preso. Não agora. Não tão perto de seu pai.
Armandinho socou Anderson Leitão na costela. O celular de Leitão cai no chão. Leitão se curvou por causa da dor. Armandinho socou mais uma vez. E outra. Ele emendava socos de esquerda com cruzados de direita. Leitão cambaleou. Ele quase caiu para trás, mas se curvou rapidamente para frente para recuperar o equilíbrio. Se curvou para frente na mesma hora em que Armandinho dava um gancho de esquerda. Leitão foi ao chão. Armandinho se abaixou e agarrou Leitão pelos cabelos. Leitão era puxado e tentava se levantar como podia. Armandinho deixou Leitão de pé. Leitão estava confuso, tonto. Havia desmaiado por alguns segundos quando caiu. Armandinho tomou a distância de uma rasteira e se preparou para o fatality. Armandinho deu um impulso e socou a cara de Leitão o mais forte que pode. Leitão voou para trás e caiu direto com a cabeça no chão. O impacto foi fatal. Anderson Leitão estava morto.
Armandinho não poderia desistir. Ele roubou a carteira de Leitão e correu.
]]>Armandinho não precisou ir muito longe para achar seu olho, esta é a realidade. Diferente de seu pai, que armadinho nunca conheceu, seu olho sempre ficou preso em sua cabeça e, mais uma vez diferente de seu pai, que já estava desaparecido a pelo menos 13 anos, idade de Armandinho, seu olho fora arrancado há pouco tempo. Seu olho estava caído junto ao seu pé esquerdo. Armandinho recolheu seu olho do chão e o enfiou de volta na cara. O olho não funcionou. Armandinho então o colocou no bolso e pensou que se seu pai fosse médico ele provavelmente poderia recolocar seu olho de uma forma que este funcionasse novamente. “Será que papai é médico?” Pensou armandinho.
Dias se passaram, seguidos por anos. Armandinho já era um adulto. Ele havia largado a escola para procurar o seu pai e agora vivia a vida de um andarilho. Vivia da boa vontade dos outros.
Armandinho fugiu de casa criança e passou alguns meses vagando sem rumo e sem um plano. Assim ele não teria qualquer êxito. Passou suas primeiras dificuldades sem baixar a cabeça. Com o tempo Armandinho passou a seguir pistas. Seu pai era um homem, no mínimo 13 anos mais velho que ele, e que havia morado em Vitória em 1996. Infelizmente grande parte da população de Vitória poderia ser pai de Armandinho e com isso os anos se passaram. Procurou também por cidades vizinhas e não tão vizinhas assim, até que um dia uma senhora lhe disse:
- Uma vez eu vi um homem caolho igual a você.
Armandinho percebeu que havia ignorado um fato obvio. Por serem pai e filho, ele seria então muito semelhante a seu pai. Armandinho se virou e olhou seu reflexo no vidro de um carro. Seu pai era igual a ele. Cabelos compridos e mal cuidados, uma barba emaranhada e caolho. Armandinho sentou na calçada e chorou. Seu pai era um pirata e nesse momento deveria estar em algum lugar em alto mar.
Apesar da conclusão de Armandinho ser um absurdo genético, ela não chagava a ser impossível, muito pelo contrário, Armandinho estava certo. Agora ele só precisaria de um barco.
]]>A família chegou na praia e logo as crianças saíram correndo e se espalharam. A vó Célia correu atrás das mais novas para que elas não se afogassem. Prima Júlia se agarrou com uma garrafa de pinga e desapareceu. Parmezão e Chocolate, os primos funkeiros, ficaram junto do carro que agora tocava o pancadão no último volume. Armandinho perdeu um olho.
O pai de família por alguns momentos chegara a hesitar, mas agora estava confiante de que esta seria a melhor viagem em família da sua vida. Pegou o espumante e foi até um quiosque perguntar que horas eram. Eram 6 horas. Houve um erro de calculo em algum momento, isto é certo, mas 6 horas passam rápido e logo seria meia noite.
7:20 as crianças começaram a enjoar da praia. 5 crianças já tinham se afogado e o resto estava com medo de entrar no mar. Vó Célia já não tinha mais certeza de quantos netos tinha e não estranhou falta de alguns. O importante é que as crianças sobreviventes queriam voltar e Armandinho realmente precisava ver um médico, mas o pai de família disse que não. Ele disse que todos precisavam esperar o ano novo, que era um momento mágico de confraternização, e que ninguém sairia de lá antes de meia noite.
Quando faltavam poucos segundos para a virada o pai começou uma contagem regressiva animado. Dez… Nove… Oito…
- O que vai acontecer quando chegar em zero?
- A gente grita e se abraça minha filha.
- Por que?
- Porque é ano novo.
- Mas o que tem de especial ser ano novo?
- Como assim o que tem de especial?
- É só uma meia noite qualquer.
- É ano novo! Eu vou estourar esse espumante aqui e tua mãe vai gritar um “ê” bem animado, você vai ver.
- Só isso?
- É. O que mais você queria?
- A prima tem razão Tio Beto – disse Parmezão. – O senhor criou a maior expectativa em todos.
- Eu mesmo estava achando que você ia se suicidar meia noite – completou Sandra, a mulher grávida.
- É mesmo pai. Nós estamos esperando uma grande surpresa – disse Armandinho, o menino caolho.
- Pai, que horas são?
- Puta que pariu! Meia noite e 5.
- Está vendo só. Já é ano novo e você nem percebeu. Que merda de comemoração pai. Nada de especial nessa porcaria de ano novo.
- No meu relógio ainda faltam 3 minutos – disse Chocolate.
- No meu faltam 7 – disse Sandra.
- Eu acertei o meu relógio pelo relógio do posto de gasolina gente.
- Mas o relógio do posto podia estar errado – interrompeu Armandinho.
- Será? Mas como vamos saber quando for ano novo?
- Pra que você quer saber essa estupidez? Não tem nada pra comemorar.
Nesse exato momento Prima Júlia, que tentava operar o bujão de gás para aquecer um lombo de porco na farofa, explodiu. Por um momento houve um silêncio mágico e todas as crianças sorriram. A felicidade tomou conta de todos, pois eles sabiam que era ano novo. O pai estourou o espumante e a família se abraçou.
- Eu te amo pai – disse Armandinho.
- Eu não sou teu pai.
Armandinho chorou com o olho que lhe restava.
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