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Explica isso pra ele então.
Alberto fazia as coisas sempre do seu jeito e reclamava quando elas não davam certo. Alberto queria aprender e melhorar. Quem sabe fazer as coisas de um jeito novo e mais efetivo, mas Alberto aprendia do seu jeito. Experiência é melhor que teoria e Alberto só fazia as coisas do seu jeito.
Alberto um dia se deparou com algo que nunca tinha visto antes. Era grande e massiva. Muito maior que Alberto com certeza. Era maior e mais pesada. Mais forte também. Ela se erguia ameaçadoramente, mas curiosamente não tomava nenhuma atitude. Ela apenas ficava ali, parada, desafiando Alberto.
Alberto se declarou então inimigo daquilo, seja lá o que aquilo fosse.
Só entre nós, aquilo era uma árvore. Alberto não gostava da árvore.
A árvore ofendia Alberto e o deixava inseguro. Alberto não sabia como agir, porque por mais que ele odiasse a árvore, ele era incapaz de dar um soco nela. Bem, ele podia dar um soco nela, mas não de um jeito que machucasse a árvore.
Alberto cresceu e na sua primeira relação sexual ele brochou. A culpa era da árvore. Então Alberto passou a comer muitas frutas. Ele comia as frutas e jogava as sementes no lixo. Porque se ele não poderia espalhar sua semente a árvore também não poderia.
Já com 80 anos Alberto voltou para o lugar onde tinha visto a árvore pela primeira vez. E lá estava ela, do mesmo jeito que ela sempre esteve. E ela ainda não tinha se mexido. Alberto odiava a árvore.
- Eu odeio você árvore.
- Eu odeio você também Alberto.
- Ei, você falou? Você falou, árvore?
Silêncio.
- Eu sei que você falou. Eu ouvi você.
Silêncio.
- Árvore, eu estou mandando você falar de novo!
A árvore não falou.
Os últimos anos de sua vida Alberto passou em uma casa de repouso. Passou tentando convencer os enfermeiros que uma vez a árvore falou com ele. Que a árvore odiava ele também. Que ele precisava derrubar a árvore. Agora ele tinha um motivo para derrubar a árvore. A árvore odiava ele.
Alberto morreu e todos achavam que ele estava louco. Morreu longe da família e dos amigos que o abandonaram. Ninguém mais agüentava ouvir o velho Alberto e suas histórias sobre a árvore. Ninguém mais queria estar perto do Alberto.
No fim a árvore manipulou a todos.
A arvore odiava Alberto desde o primeiro momento. Aquela criatura pequena e cabeça dura que achava tudo ruim o tempo inteiro e olhava feio para a árvore.
]]>Sabendo que dona Elisa vive sozinha você pode imaginar que ela é daquelas que divide a casa com vários gatos. E esse era um dos primeiros planos que Elisa teve quando finalmente aceitou que ia viver sozinha para o resto da vida. Só que a coitada é alérgica a gatos. Muito alérgica.
Elisa é muito sozinha. Sozinha mesmo. Tão sozinha que é do tipo que tenta seduzir o entregador de pizza. E tentou tanto seduzir o entregador de pizza que acabou ficando gorda de tanta pizza e nem o entregador de pizza queria comer ela agora.
Mas tudo deu certo para dona Elisa quando ela comprou um computador. Mas do que adianta uma velha com um computador que ela não vai saber usar? E Dona Elisa realmente não sabe até hoje, mas quando ela comprou o computador foi um cara pra instalar. Sabe como são esses caras de informática. Tudo que foi preciso foi uma só piada com cabo e o cara já entendeu a mensagem deu conta do recado.
E dona Elisa não sabe mexer no computador nem entrar na internet, mas tem o telefone de muitos técnicos pra lhe ajudar. Um bando de nerd bizarro que gosta de sacanagem estranha com mulher gorda e safada e não brocha com ela.
E hoje em dia pra quem perguntar dona Elisa vai dizer que mesmo com mais de cinqüenta anos vale a pena tentar navegar na internet e que o mais importante é ter um PC com webcam.
]]>Gostaria de saber por que o sono faz isso com a gente. Parece que ele gosta de nos deixar com cara de bobo, piscando os olhos descoordenadamente durante a aula, ou então com olheiras em um encontro.
A menina se irritou quando esperou e o sono não veio. Ela virou para um lado, virou para o outro e nada. Ela queria saber onde estava o sono então perguntou para o dragão que estava voando sobre a sua cama: Você sabe onde está o sono? E ele respondeu que não. Já estou esperando há uns 20 minutos e ele não vem. Você acha que ele vai demorar?
Do que iria adiantar fazer perguntas para o dragão que voava sobre a sua cama. Ele provavelmente não saberia de nada. Quem sabe se ela navegasse com a sua cama pelo oceano, até uma pequena cidade. Parecia um ótimo plano, mas agora ela estava ocupada comendo um pedaço de bolo.
Espera, de onde veio esse dragão voando no meu quarto? Ela tentou olhar em volta para ver onde estava o dragão mas era tarde de mais, porque ela estava acordada agora, e o sono estava demorando para voltar.
Quando será que o sono vai voltar? Espero que ninguém tenha comido o meu bolo.
]]>Mas não era uma chuva comum. Chovia toda a água do mundo. Algum oceano devia ter secado em algum lugar para chover tanto. Agora tudo era água.
A chuva batia forte na janela do quarto como se o vento quisesse que a água entrasse. E a menina pensou que se não corresse e saísse talvez se afogasse no próprio quarto.
Mas se saísse para onde iria? Era tudo água mesmo. Talvez melhor fosse ficar.
E por algum motivo achava que a culpa de tanta água era toda sua. E quem sabe a água nem fosse água mesmo. Depois de tanto segurar o choro as lágrimas podem ter encontrado outro caminho para descer.
E a menina exagerada estava preparada para se afogar no mar de lágrimas.
E a menina exagerada abriu a janela e estava sol.
]]>Anderson Leitão estava em sua casa. Estava pensando em como faria para ser levado a sério no jornalismo, como faria para ser reconhecido, e de repente um estrondo e um homem apareceu no meio da sua sala de estar. Anderson não teve reação. Olhou para o homem e quando seus olhares se cruzaram o outro disse:
- Oi, eu vim do… Em que ano nós estamos?
- 2010 – respondeu Leitão.
- Do futuro. – O homem sorriu contente.
Leitão ficou alguns segundos observando aquele homem do futuro, que parecia muito feliz pelo fato de ser do futuro, e não do passado.
Quando você viaja no tempo você pode ser do futuro ou do passado. Se você for do futuro isso significa que você é uma pessoa muito legal, um homem que sabe das coisas que ninguém mais sabe. Você traz respostas para as dúvidas das pessoas. Você traz tranquilidade com histórias de um futuro incrível onde os carros voam e os aviões submergem. Ou então você traz esperança, uma chance para mudarmos um futuro apocalíptico. Se você vem do passado você é um idiota. Você não sabe de nada que as pessoas do presente sabem, você não vai entender as tecnologias e vai ficar enchendo o saco perguntando coisas obvias. Você vai baixar vírus no meu computador e será a pessoa mais ingênua do mundo. Tudo que você disser poderia ter sido descoberto através de uma simples pesquisa. Pessoas só vem do passado por motivos cômicos.
O homem que estava na sala de Anderson Leitão era um homem do futuro e isso era uma boa coisa. Anderson Leitão pensou e concluiu que as pessoas gostariam de saber sobre o futuro.
- Posso te entrevistar?
- Claro que sim.
- Primeiro, como é o futuro? Existe paz ou guerra?
- Paz, mas fazemos guerras de 4 em 4 anos para decidir as coisas. Chamamos elas de eleições.
- Como assim guerras de 4 em 4 anos? Isso é terrível.
- De forma alguma. É até bem divertido. Mas as guerras são um pouco diferentes das guerras que vocês têm hoje em dia.
- Diferentes como?
- Nos guerreamos com o que vocês chamam de paint ball.
Anderson Leitão tremeu e o homem de futuro continuou sua explicação:
- Não faz sentido ter que morrer em uma guerra. Nós simplesmente combinamos que no lugar de munição usaríamos tinta e quem fosse atingido teria que sair do território eleitoral.
- Território eleitoral?
- Brasília.
Anderson Leitão parou por alguns segundos tentando entender o que havia escutado.
- Você quer dizer então que as coisas no futuro são decididas em guerras – mais banais que as de hoje em dia -, porem vocês todos combinaram que para evitar as mortes usarão armas de paint ball.
- Isso mesmo – disse o homem que veio do futuro, muito satisfeito com a forma com que as pessoas no seu tempo resolvem as coisas.
- Você não deveria estar feliz. Isso é terrível. As pessoas deveriam resolver suas diferenças de forma pacífica, através de diálogo. Vocês simplesmente inventaram um jeito de pegar o que já era idiota e transformar em algo mais idiota ainda.
Os dois se olharam por alguns segundos e Leitão voltou a falar, só que mais calmo agora.
- E o que impede as pessoas que perderam a guerra de começar outra logo após. Eles não podem simplesmente se contentar em terem perdido uma partida de paint ball.
- Bom senso.
Anderson Leitão gargalhou.
- Você quer dizer que o que faz as guerras de paint ball funcionar é o bom senso? Bom senso?
- Claro. É tudo uma questão de bom senso. Veja, o jeito como vocês fazem as coisas é que não faz sentido nenhum.
- Por favor, se aprofunde.
- É até engraçado. Vocês tentam dialogar antes de ir para a guerra. – O homem do futuro deixou escapar uma risada. – Como é que você dialoga efetivamente sabendo que se tudo der errado você pode dar um soco na outra pessoa? Até existe o interesse em se resolver as coisas pacificamente, mas vocês sabem que não é a única saida.
- Faz sentido até.
- No futuro a gente começa com a guerra. Todos tem uma chance de “matar” aqueles que estão contrários e no fim quem ganha as guerras resolve as coisas. Pode parecer estranho, mas todas as pessoas que morrerem de brincadeira teriam morrido de verdade. Isso mexe com a cabeça das pessoas. E porque insistir em uma coisa que você sabe que não vai dar certo para você? A única saída para estas pessoas é o diálogo.
Anderson Leitão começava a se convencer. Quem sabe o futuro fosse realmente um lugar de pessoas mais evoluídas.
- E você deve estar pensando: mas isso deve fazer com que as pessoas que ganham as eleições ignorem totalmente as que perderam.
- Isso.
- Não acontece. Sabe, mesmo o lado que ganha tem muitas baixas. E poucas pessoas ficam satisfeitas em morrer por aquilo que elas acreditam. A não ser que você acredite em uma coisa só. Eu por exemplo já morri sete vezes. Na primeira vez você até pode se deixar levar por essa idéia, mas lá para a terceira você acaba percebendo que morrer uma vez só pelos seus ideais não é o suficiente. E é muito mais legal estar vivo para ver as coisas dando certo. Ou poder ter a prova de que você estava errado realmente.
- Eu não consigo acreditar nisso, mas até que faz sentido.
- Espero que tenha sido esclarecedor. Agora eu preciso ir.
]]>Sempre que algo acontecia uma sempre confortava a outra. Foi assim com o primeiro fora, a primeira bomba na faculdade, a primeira batida de carro, a primeira demissão, a primeira menopausa. Foi assim com tudo que poderia ter sido.
Envelheceram juntas e, apesar das brigas – que existiram, não se engane, e algumas foram até feias -, resolveram passar seus últimos anos vivendo sob o mesmo teto, em um condomínio residencial projetado para a terceira idade.
Um dia Denise chegou em casa da aula de pintura e encontrou Paula chorando.
- O que foi que houve, Paula?
- Minha amiga Denise morreu. Eu acordei do meu cochilo e já tinham levado o corpo dela.
- Que besteira, Paula. Sou eu Denise. Não está me reconhecendo? – Denise já estava acostumada com as confusões da amiga, que não tinha envelhecido tão bem como ela.
Paula balançou a cabeça negativamente.
- Denise estudava comigo no Padre Bernadete, eu reconheço a Denise.
- Mas eu estudei no Padre Bernadete com você, não lembra? A gente matava aula na quadra com os meninos.
- E qual era o nome do menino que a Denise era apaixonada e que tirou a virgindade dela e depois nunca mais quis saber dela de novo?
Denise ficou um pouco chocada com a lembrança repentina da infância, mas foi logo interrompida por Paula que resolveu continuar a frase.
- Eu também não estranho. A Denise nunca teve uma boa higiene pessoal.
- Como assim nunca teve uma boa higiene pessoal?
- Ela era minha amiga, mas fedia. Fedia e era mau caráter.
- O nome dele era Arnaldo! – Disse Denise com convicção, abrindo um sorriso de satisfação, de quem, depois de todos estes anos, consegue arrancar a verdade de uma pessoa falsa.
Paula fez uma cara de espanto. Era mesmo Denise ali parada na sua frente. Ela não podia acreditar.
- Puta que pariu, morri também!
]]>Mauro Sérgio não chegava a ser burro, mas também não estava acima da média. O problema é que, sentado assim tão perto de Regina, era sempre considerado burro por comparação.
Um dia Mauro Sérgio se encheu de tudo isso. Passou a noite inteira estudando. Ele adiantou todos os exercícios da próxima aula. Estava com tudo pronto. Fez e refez todos os exercícios de matemática para garantir que estavam corretos. Se empolgou com a idéia e instalou programas de computador para visualizar gráficos e chegou até a ler sobre o tema na internet. Leu até além da sua matéria. Mauro Sérgio havia mergulhado de cabeça na matemática e já estava até sonhando com sua faculdade, seu mestrado, doutorado e pós-doutorado. Ele seria um grande acadêmico.
“Um grande acadêmico!” Mauro Sérgio saboreava a palavra acadêmico e sorria empolgado com o primeiro plano que fazia para o seu futuro. E era um futuro brilhante que ele previa.
Mauro Sérgio ia ser melhor que Regina. Ia com certeza. Tão melhor que deixaria Regina chateada. Ah, Mauro Sérgio queria deixar Regina chateada, como ele queria. Ele queria que Regina engolisse toda a sua arrogância. Ele a faria pagar por todas as vezes que ela o corrigiu na frente de alguém, sem que ele tivesse perguntado nada, só para humilhá-lo.
Regina teria que reconhecer o intelecto superior daquele futuro doutor.
Talvez o seu recém descoberto brilhantismo chegasse até mesmo a impressionar Regina de outras maneiras. Talvez ela se sentisse atraída por um homem tão inteligente e matemático tão promissor. Talvez ela aceitasse sair com ele depois da aula para um suco. Quem sabe marcassem um cinema no final de semana. Regina iria pedir para repetir a dose no dia seguinte, mas Mauro Sérgio diria que precisava estudar, pois a matemática não se aprenderia sozinha.
Cada vez mais Mauro Sérgio se dedicaria à matemática enquanto Regina ficaria obcecada – coitada -, entraria em depressão, perseguiria Mauro Sérgio e imploraria pela sua atenção, não conseguiria mais estudar, nem se concentrar nas aulas. Suas notas começariam a baixar e ela não conseguiria entrar para a faculdade de medicina.
Mauro Sérgio se assustou. Como ele poderia ter prazer em estragar a vida de uma menina tão inocente? Estes não eram os modos de um gênio, este era o modo dos vermes, pessoas de intelecto mediano que teriam uma vida sem resultados e por isso precisavam se agarrar a sua mesquinharia para terem forças para sobreviver.
Mauro Sérgio era um gênio, alguém superior, e por isso não deixaria que Regina estragasse sua vida. Ele lhe incentivaria e lhe cobraria. Quem sabe acabasse cedendo algumas vezes e aceitasse ir ao cinema. Ele programaria sua rotina melhor para encaixar Regina. Isso que ele faria. Assim quem sabe com o tempo parasse de se incomodar com o tempo perdido, se acostumasse à companhia dela. Quem sabe ele até passasse a gostar dela?
Ele teria filhos com ela e ensinaria matemática a eles. Desde cedo os garotos seriam educados e se tornariam adultos fabulosos. Trariam avanços às ciências e fariam grandes descobertas em suas áreas.
O futuro que Mauro Sérgio imaginava era mesmo brilhante.
Ele acordou cedo no dia seguinte e correu para o pré-vestibular. Correu com prazer pela primeira vez na sua vida. Com prazer, pois não seria apenas mais um ignorante, ele agora seria um gênio da matemática. No caminho foi ensaiando o que pretendia falar para Regina. Pensou em se oferecer como monitor para um grupo de amigos. Seus olhos brilhavam.
Mauro Sérgio nunca havia se sentido daquela forma. Ele ainda tinha muito que aprender, muitas fórmulas para estudar, mas, principalmente, precisava decorar quando eram os feriados municipais.
Com raiva e frustrado, o maior matemático que nunca chegou a ser um matemático desistiu da matemática.
]]>Armandinho foi colocado na maca e deixado lá. Não havia nenhum sinal do doutor, possível pai de Armandinho.
A espera pelo doutor, que não passou de alguns minutos, foi a mais terrível da vida de Armandinho. Apesar de tudo que havia passado até ali, de todo o sofrimento, da perda de seu olho, da proximidade que chegou da morte, aquele estava sendo o momento mais tenso até então. Armandinho tremia de nervoso. Em poucos momentos saberia o resultado de seu trabalho. Será que encontraria seu pai, ou será que havia desperdiçado sua vida inteira?
Quando o doutor pirata entrou no pequeno consultório Armandinho não pode acreditar no que seu olho via. O doutor era um homem barbado e descabelado e vestido como pirata, exatamente como Armandinho acreditava ser seu pai. As feições no rosto dos dois não eram parecidas, não tinham a mesma altura e enquanto Armandinho era mais magro e definido, o doutor era um homem troncudo. Tais diferenças se davam porque Armandinho havia puxado pela sua mãe, mas a semelhança entre seus cabelos e barbas rebeldes deixava claro para Armandinho que aquele era o seu pai.
Muitos não assumiriam um parentesco com outra pessoa baseando-se apenas no corte de cabelo e barba, mas de qualquer forma Armandinho estava certo. Seja por sorte, intuição, ou um conhecimento aprofundado de cabelo e barba – não importa -, Armandinho estava certo.
O velho médico pirata, por sua vez, não parecia estar reconhecendo Armandinho como seu filho desaparecido. Neste momento Armandinho falou:
- Papai!
Mas, infelizmente, Armandinho moveu os lábios, mas não saiu qualquer som de sua boca. Ele havia perdido a voz gritando mais cedo e agora não conseguiria contar para o homem na sua frente que ele era seu pai, e que ele, Armandinho, havia dedicado sua vida a encontrá-lo.
- Cuidado com essa garganta, isso aí não está parecendo nada bom. Nada bom mesmo. E olha só para esse olho.
Armandinho colocou a mão no bolso e tirou seu olho.
- Olha rapaz, esse é o olho mais podre que eu já vi na minha vida. Não sei o que você esperava que fosse acontecer quando resolveu carregar esse olho por aí no seu bolso, mas isso não tem mais jeito não.
Armandinho esperava encontrar seu pai, um médico pirata, que colocaria seu olho de volta no lugar e o amaria para sempre, mas aparentemente as coisas não estavam indo muito bem para o lado de Armandinho.
- Se existe alguém nesse mundo capaz de colocar meu olho de volta esse alguém é você papai – foi o que Armandinho tentou dizer, mas só o que se ouviu foi um assobio irritante.
- Muito bem garoto, você pode escolher entre olho de vidro ou enxerto de carne para tapar esse buraco. Me explica uma coisa, como foi que você não infeccionou e morreu? Olha só para esse buracão aberto na sua cara. Tudo bem que essa crosta de sangue preto disfarça um pouco, mas tirando ela você tem um buraco gigante no meio da cara. Isso não é saudável.
Armandinho estava irritadíssimo. Seu pai não era tão incrível como ele imaginava. Armandinho estava tão desapontado que começou a questionar se procurar seu pai tinha sido uma boa coisa a se fazer. O problema de fazer tais questionamentos é que, no caso de Armandinho, eram questionamentos fatais.
Armandinho só estava vivo, pois sua força de vontade o mantinha vivo. Armandinho estava tão focado em sua busca, tão determinado a encontrar o seu pai, que não tinha tempo nem de morrer. Quando Armandinho questionou tudo isso, como se atingido por um raio ele teve uma convulsão e caiu inerte.
- Está vendo só. Eu tinha certeza que andar com um buraco desses na cara não era uma coisa saudável. Agora que você morreu tudo faz mais sentido.
O médico se preparava para queimar o corpo quando resolveu olhar mais uma vez para Armandinho. Pegou o olho podre do chão e depois resolveu compará-lo com o olho bom de Armandinho. Depois resolveu compará-lo com o seu próprio olho, e nesse momento algo mágico aconteceu.
O doutor percebeu que tinha a mesma cor de olho que Armandinho, e foi então que reparou a barba e o cabelo do filho, em seguida suas unhas do pé. O doutor percebeu que aquilo só podia significar que era o pai daquele jovem.
Seus anos de experiência médica o tornaram capaz de realizar um teste de DNA a olho nu, e então confirmou o que já sabia.
O doutor pirata rapidamente cuspiu no rosto do filho e esfregou pegou uma flanela para tirar toda a sujeira do machucado. Com a ponta dos dedos pinçou a ponta do nervo óptico e o atou à ponta que estava presa ao olho podre com um nó bem dado. O médico forçou o lho de volta dentro do crânio de Armandinho e com uma faca abriu um buraco no seu peito. O doutor enfiou sua mão no peito do filho e apertou seu coração com força, fazendo com que voltasse a bater.
Como nos sonhos de Armandinho, seu pai o havia salvado e recolocado seu olho. O pai de Armandinho, por mais que nunca tenha ouvido falar no seu filho, já o amava profundamente. Armandinho havia seguido em frente quando o universo parecia querer que ele desistisse. Armandinho havia matado um homem, se amarrado a uma baleia, enfrentado piratas, feito de tudo para encontrar seu pai. Agora ele tinha sua recompensa, uma vida feliz ao lado do seu pai. Armandinho conseguiu!
Infelizmente os momentos que Armandinho passou morto deixaram seqüelas terríveis, mas nem tudo é perfeito.
]]>Este post, como a numeração supõe, faz parte de uma série. Eu recomendo muito que você leia os outros para conseguir entender a história. Aqui você encontra o resto deste conto.
Piratas com jet skis vieram zunindo de todos os lados. Enquanto a baleia terminava de destroçar a lancha, Armandinho era levado ao grande barco pirata que estava ancorado ali perto.
Contrariando o que a maioria poderia pensar, Armandinho não desistiu. Em sua mente as coisas já não faziam mais sentido nenhum. Armandinho não sabia mais dizer se era um homem ou uma criança, ou quantos anos haviam passado desde que começara a procurar por seu pai. A angustia de uma busca de anos havia finalmente atingido a mente do nosso herói. Neste ponto Armandinho não passava de um espectador da própria vida, cooperando com tudo e sem saber se deveria ou não interagir com a realidade.
Os piratas chegaram com Armandinho no barco e em questão de minutos já estavam no convés, onde um pirata gordo que usava bóias de braço fazia perguntas à Armandinho.
- Eu vi você chamando a baleia! Como você fez aquilo? Você conversa com os animais, qual é o seu segredo?
Os piratas estavam sofrendo uma espécie de dilema. Normalmente eles torturariam seus sequestrados até conseguirem as respostas que precisavam, mas, neste caso em específico, alguns estavam receosos de que Armandinho pudesse enviar animais marinhos terríveis das profundezas para lhes atacar. Alguns acreditavam que, pelo simples fato de terem capturado um semideus, seriam amaldiçoados com tempestades sem fim.
Na realidade Armandinho era um homem desesperado pelo amor de um pai que nunca conheceu que, apesar de ter perdido um olho, teve muita sorte de conseguir chegar até ali. Esta descrição é muito diferente da descrição que você esperaria de um semideus. Mas os piratas não sabiam de toda a história de Armandinho e, baseando-se apenas pela sua aparência, ele realmente parecia um demônio surgido da boca do inferno. Estes piratas eram do tipo que respeitavam demônios surgidos da boca do inferno e por isso não estavam torturando Armandinho.
- Você não vai falar comigo? Você está zombando de mim? – O pirata gordo e de bóias continuava a pressionar Armandinho.
Armandinho estava delirando. Não havia nem compreendido as perguntas, mas a pressão da atenção dos piratas e a barulheira que se dava ao seu redor estavam o irritando. Armandinho respirou fundo e deu um grito estridente, daqueles que destrói a sua garganta e faz você perder a voz depois.
- Besta do inferno, você está tentando nos amaldiçoar! Ele está evocando os demônios das profundezas para devorarem nossas almas.
O pânico se espalhou e o caos tomou conta do convés. Alguns piratas pularam no mar, outros se preparavam para fugir com jet skis ou pequenas lanchas. Alguns piratas preparavam suas armas para enfrentar o exército do outro mundo que viriam em segundos.
Eis que no meio de toda a confusão surgiu o capitão pirata. O capitão era um homem alto e magro que vestia um terno preto, camisa branca e gravata vermelha. Ele carregava uma pasta de documentos na mão esquerda e vinha em direção à Armandinho.
- Jovem, posso saber por que você está aterrorizando minha tripulação?
Em resposta Armandinho deu outro grito, mas muito mais rouco que o primeiro.
- Estou entendendo. – O capitão olhou em volta e perguntou a um pirata que cogitava em fincar uma faca no coração de Armandinho – por que exatamente a gente o trouxe a bordo?
- Ele tem o controle sobre todas as criaturas do mar…
- Eu acho isso bem difícil de acreditar.
- Capitão, ele é filho do próprio Lúcifer. Eu vi com meus próprios olhos quando ele ordenou que os tubarões atacassem um exército dos nossos homens e que as gaivotas defecassem em nossas crianças.
- Marquinhos, você sabe que não tem nenhuma criança a bordo do nosso barco.
- A besta engoliu nossas crianças…
- Você percebe que trouxeram um homem alucinando a bordo e se assustaram sozinhos?
- Percebo sim senhor.
Os piratas pouco a pouco iam se acalmando enquanto a notícia de que eles eram idiotas se espalhava pelo boca a boca.
- Rapaz – disse o capitão a Armandinho -, você pode me explicar o que aconteceu com você? Foi um dos meus homens que arrancou o seu olho?
Armandinho deu outro grito, mas desta vez ele estava tão rouco que parecia um assobio. Mesmo assim um pirata que não estava muito convencido com a história de que havia se assustado sozinho acreditou que aquele grito fino e fraco era na verdade linguagem dos demônios e se matou com um tiro na cara.
- A gente precisa fazer alguma coisa em relação a esses gritos. Isso está acabando com o ânimo dos rapazes. E eu estou pensando em sequestrar um psicólogo para ajudar vocês.
- Capitão o que a gente faz com o filho do demônio? Cortamos a cabeça dele e jogamos no mar?
- E por que a gente faria uma coisa dessas? Por diversão? Claro que é divertido cortar a cabeça de uma pessoa e jogá-la no mar. Eu mesmo já matei muitas pessoas assim. Mas como no mínimo dez dos meus homens fugiram ou se mataram, acho melhor escravizarmos ele e pormos ele para limpar essa sujeira que está esta embarcação.
Armandinho deu outro grito alucinado, que desta vez soou como um soluço.
- Alguém leva esse homem para ser examinado pelo doutor.
Ao ouvir as palavras doutor Armandinho sai do seu transe. Ele foi aos poucos refletindo sobre os últimos acontecimentos e entendeu que estava prestes de descobrir a verdade. Em pouco tempo ele estaria de frente para o homem que poderia ser o seu pai.
]]>Infelizmente Armandinho não estava muito apto a fazer qualquer coisa naquele momento. Não estava apto, mas isso não quer dizer que não fez. Ele acabou fazendo alguma coisa que salvou sua vida – claro que sim. Se não tivesse feito esta não seria a história de um homem que sofreu o sofrimento mais cruel, o sofrimento de viver a vida sem conhecer o próprio pai. Esta de fato é a história de um homem que venceu o desafio de não ter um olho e fez coisas incríveis se alimentando do sonho de que encontraria seu pai. Esse não é o conto de um mergulhador de meia idade e sua lancha.
Um dos piratas – o musculoso que só vestia uma sunga – apontou sua metralhadora para Armandinho.
- Rapaz, você está chorando e gritando pelo seu pai, mas você tem que entender que nós somos piratas, nós precisamos voltar com esta lancha para o nosso barco. É assim que a gente ganha a vida.
- E essa é uma lancha bem cara – completou o outro pirata.
- Nós não temos motivo para matarmos você, preferimos que você pule no mar. Realmente preferimos que você pule no mar…
Neste momento Denis agarrou seu equipamento de mergulho e se jogou no mar.
- Seu amigo entendeu o que eu quis dizer.
- Entende? Ele pulou no mar e isso significa que ele não vai levar um tiro na cara.
- Se você pular no mar a gente não precisa matar você e jogá-lo no mar depois.
- Porque, não sei se deu para perceber, você vai parar no mar de qualquer jeito.
Neste momento Armandinho enlouqueceu de vez. Ficou biruta. Tão biruta que deu um grito sem qualquer motivo aparente. Um grito gutural e aterrorizante, seguido por:
- Papai!
Os piratas se encheram de vez. Apontaram as metralhadoras para Armandinho e estavam prontos a atirar quando foram interrompidos pela lancha que aparentemente resolvera sair voando.
Não se trata de uma lancha voadora, eu garanto. O movimento súbito da embarcação foi causado por uma baleia enfurecida.
Era a mesma baleia que já havia encalhado, servido de transporte para um homem desesperado que colocava todas as suas forças em encontrar o seu pai e, se tudo isso não bastasse, estavam jogando cadáveres exatamente onde ela planejava se acasalar e isto estava arruinando o clima.
A baleia resolvera que iria acabar com aquela palhaçada destruindo a lancha.
De perto pode ter parecido que a lancha havia saído voando, mas de longe, mais especificamente de certo barco pirata, parecia que Armandinho havia evocado um monstro marinho para se defender.
- Aquele homem acabou de ordenar que uma baleia atacasse a lancha. Como será que ele fez isso? – Perguntou um dos piratas que observava o ataque, mas só por perguntar.
- Aposto que nós ganharíamos alguma espécie de recompensa se trouxéssemos um homem que se comunica com baleias para o capitão.
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