Archive for the 'textos' Category

Jun 10 2008

Dom Casmurro

Published by Nigel Goodman under textos

A vida é difícil. Né fácil não. É igual uma roda de capoeira, tem que ficar esperto pra não levar pernada. Eu sei que essa frase é doente, mas eu acho muita graça de falar isso como se fosse uma colocação séria.

- Vocês viram aquele avião que caiu com 200 pessoas no Sudão?

- Meu Deus, mas que tragédia!

- É a vida, fazer o que. É igualzinha a uma roda de capoeira - E nessa parte rola uma pausa dramática, o olhar corre diretamente para um vazio, pouco a cima e a esquerda. - você tem que ficar esperto pra não levar pernada.

- Oh!

Acontece que as coisas não são fáceis, você tem que correr atrás. Você tem que se dedicar, sabe como é? A verdade é que eu não sei como é tanto assim. Outro dia eu cruzei com um livro que me serviu como uma garantia de que eu estava no caminho certo. “Como falar dos livros que não lemos?” é o nome do livro, e ele é brilhante. Defendi isso durante todo o ensino médio. Não li nenhum dos livros que eles me obrigavam a ler durante o ensino médio, nenhum, mas mesmo assim eu conseguia sempre notas altas e pequenos elogios no topo da prova. Meu elogio preferido foi um “boa leitura” que acompanhava uma nota 9, e ficava no topo de uma prova sobre um livro que eu nem sabia o nome dos personagens.

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May 01 2008

Assalto no engarrafamento

Published by Nigel Goodman under Dia a dia, textos

Hoje eu passei 1h30min engarrafado em uma rua. 30min desse tempo eu passei em um quarteirão só. Planejamento de trânsito? Que porra é essa? Neste quarteirão em que passei 30 minutos eu passei por momentos de tensão.

MOMENTOS DE TENSÃO! Entra uma música tensa agora.

Estava com a minha namorada e o irmão dela no carro quando de repente meus olhos cariocas bem treinados avistam uma arma de fogo. Levem as mãos à boca leitores. O momento para isso é agora. Eu avistei o meliante a incríveis… 5 metros? Qual a distância do seu carro para o carro da frente? Vou chutar 5 metros. E a arma estava lá. Na mão de um bandido! Eu fiquei com medo, mas ligeiramente tranqüilo por ter avistado a arma com tanta antecedência. 5 metros em uma cidade onde elas costumam aparecer a 20 centímetros da tua cara é muita coisa.

Mas o ladrão estava lá com arma empunhada forçando a maçaneta da porta do motorista e eu assistindo tudo isso do carro de trás. Também não tinha muita escolha. Meia hora de engarrafamento para trás, 1 hora para frente e 10 minutos até a primeira transversal, que também estava devidamente engarrafada. Não tinha o que fazer. Era sentar ali e rezar para que o cara metesse um tiro na cara do motorista da frente. Não que eu seja espírito de porco, mas é que as probabilidades dele resolver assaltar o meu carro depois de ter disparado um tiro no meio da rua diminuem. Pelo menos se eu atirasse na cara de alguém eu pegaria o que desse pra pegar e sairia correndo satisfeito.

O bandido continuava balançando a arma na frente do vidro e mandando o motorista abaixá-lo, mas o motorista simplesmente não estava afim de ser assaltado naquela hora e não deu bola para o assaltante. Devia ser aquele tipo de gente que liga o ar-condicionado no máximo e não aceita abrir a janela por nada, você que traga um casaco e você que assalte outro carro, eu dirijo no ar-condicionado. Mas então o cara não abaixou o vidro. Sabem o que foi que o bandido fez? Guardou a arma e saiu andando tranqüilamente e desapareceu. Não tentou nem assaltar outro cara nem nada.

Ele havia se exposto. Mas não do jeito que vocês estão pensando. Ele se expôs porque sacudiu uma arma no meio de uma rua entupida de carros, chamando a atenção de todos ao seu redor. Não. Ele se expôs porque naquele breve momento toda a sua fragilidade estava exposta ao mundo. Ele estava ali de coração aberto pedindo para que um homem abaixasse seu vidro. Dava pra ver toda a infância problemática, os abusos, a passagem pelo Padre Severino, o uso de drogas, tudo. Ele havia sido mais uma vez rejeitado. Toda a sua vida simbolizada em um vidro que não quer descer.

O vidro não desceu e ele tinha uma arma. Quão devastador será isso para uma simples auto-estima marginal? Porque se você não consegue fazer alguém encurralado em um engarrafamento abaixar um vidro com uma arma de fogo você não consegue mais nada. O motorista do carro da frente olhou nos olhos da morte e não desviou o olhar. Nesse mundinho microscópico globalizado e degradado ainda existe espaço para gente com fibra de herói. Viva o motorista valente.

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Apr 09 2008

Academia

Published by Nigel Goodman under textos

Alguém aqui malha? Faz um ano que eu parei. Parei de malhar e me orgulho disso.

Academia, para quem não sabe, é o local freqüentado por pessoas que não gostam de malhar, mas fazem-no porque não têm tempo para outra atividade física. Mentira. Quem não gosta de malhar não malha. Essa desculpa de não ter tempo já foi longe de mais. Quem diz uma coisa dessas está desesperado querendo perder uma gordurinha localizada, mas não consegue. É o mesmo que o seu vizinho esquisitão e magrelo dizer que gosta de boxe, e está treinando sério para ser o próximo Tyson. Aceita que ele não gosta de boxe e esquece aquele dia que você viu ele de luvinha e calção no corredor. A verdade é constrangedora de mais.

Quando você entra em uma academia você é prontamente recebido por um instrutor que pese no mínimo 150 kg de puro músculo. O cara é praticamente um monstro, se ele o quisesse engolia você sem mastigar. Felizmente você é muito gordo e a dieta dele é proteína pura, logo ele não engole você.

Aquele animal atrofiado está ali para provar que aquele monte de peso realmente funciona. Se ele ta dizendo que não tomou produto nenhum, e nessa hora você olha bem torto pra ele, só malhou, e ficou daquele tamanho, então você pode ficar também.
Eu sempre seguia o que o instrutor falava, mas algumas coisas me deixavam um pouco desconfortável. Eu odiava malhar o bumbum, ou utilizar qualquer outro aparelho só de mulheres. Eu queria chegar em casa e ouvir minha mãe me chamar de deformado. Nunca quis uma bundinha durinha.

Hoje em dia eu sou fracote e gordinho da cintura pra cima, mas da cintura pra baixo pareço uma dançarina de axé. Tudo bem que a minha namorada gosta da minha bundinha durinha, mas não era bem isso que eu queria. Eu queria entrar na faculdade atravessando a parede de gesso, rasgar a camisa e gritar “grauuurrrrr” para a professora.

Academia também é o lugar para o papo de academia. Para iniciar esta conversa animada, a versão marombeira da história de pescador, basta ficar na frente do espelho e flexionar um músculo. Menos de dez segundos e cola alguém com você. “Ta pegando quanto no supino?”. Você pode dar qualquer resposta. Pode dizer que pega o dobro. Pode ir mais além e dizer que pega mais do que o limite da máquina, mas a resposta correta neste caso é: “Essa máquina é minha. Pego ela inteira já. Coloco ela de baixo do braço e trago ela pra cá de bicicleta todos os dias de manhã pra emprestar pro pessoal treinar.”. Depois dessa sua demonstração de estupidez a outra pessoa vai pedir licença porque ainda falta correr mais 1300 km e vai te deixar falando sozinho.

Quando eu malhava, eu não me importava em pegar menos peso que qualquer um. Até um cara raquítico, com uma aparência de doente, levantava quatro vezes mais peso que eu. Tenho certeza que ele tinha algum truque ou algo assim, mas não me incomodava com isso. Só um pouco. Eu lembro disso até hoje, mas não me incomodou tanto assim na hora. Mentira. Mas eu nunca gostei de malhar, só malhava porque não tinha tempo pra fazer outra coisa. Hoje em dia eu parei e me orgulho.

Odeio quando o instrutor diz que vai colocar um peso e me pergunta se ficou bom. As vezes ele não coloca nada. Não sei não, mas se fosse para malhar sem peso eu ficava em casa fazendo mímica.

- Ficou um pouco leve.

- Vou aumentar um pouco.

O instrutor adiciona uma placa de meio quilo ao aparelho.

- Olha, ainda está muito leve.

- Fica assim por hoje pra não forçar. Se amanhã você ainda estiver achando leve a gente aumenta mais um pouco.

- Não sei você, mas eu acho que a gravidade vai continuar sendo a mesma amanhã.

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Apr 06 2008

Felicidade

Published by Nigel Goodman under textos

Este texto alguns de vocês já devem conhecer da minha coluna no Faz Sentido, mas como muitos de vocês não conhecem, e por causa de um bug não tinham como conhecer, eu estou colocando aqui.

Falam que para uma pessoa ser feliz ela tem que ver a beleza até nas coisas mais simples. Isso me incomoda um pouco. É bastante óbvio, mas tem essa maquiagem de conselho inspirado. É o mesmo que falar que se qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, te fizer feliz, você será uma pessoa feliz. Quer dizer que as pessoas reais, que não se divertem assistindo a chuva cair no mato, estão fadadas a uma vida infeliz. Faça um teste rápido, olhe para os teus pés. Você riu? Não? Então você não é do tipo que se diverte com as pequenas coisas da vida. Conselhos idiotas não funcionam com você. Você precisa de bons conselhos de como ser feliz de verdade. Vamos aprender agora a sermos felizes sem ninguém precisar ficar retardado no processo.

Na verdade não tem nem motivo para uma pessoa ficar triste. A vida nem é tão complicada assim. A gente nasce e fica perambulando por ai. Ninguém conseguiu bolar nenhuma teoria muito boa para explicar o que a gente tem que fazer por aqui. A maioria das pessoas acredita que além de perambular nós precisamos ser bons com os próximos, porque assim, no dia que nós morrermos, nós vamos para um outro lugar onde alguém vai explicar exatamente o que a gente estava fazendo esse tempo todo. A vida é igual uma rave, é muito longa e normalmente você acaba indo embora antes da hora. Agora imagina se alguém dissesse que depois dessa rave vai ter outra rave, em um lugar bem melhor, que vai durar pra sempre, e quem vai tocar é um DJ muito bom, que na realidade foi quem produziu a primeira rave. Mas essa não é a única explicação. Têm os cientistas. Para eles toda a música eletrônica veio de uma grande explosão, um big bang, que se repetiu por 50h, e por uma questão de probabilidade, condições propícias, essas coisas, nosso planeta veio a gerar maconha, e outras formas de vida.

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Apr 04 2008

Fila por altura

Published by Nigel Goodman under textos

Quando você é criança todas as filas são feitas em ordem crescente de altura. Ficar pro final da fila é uma honra, se você não é um repetente. Todo dia é a mesma briga pra ver quem é o mais alto.

O triste dessa competição é que com o tempo paramos de crescer. Aquela virada incrivel, o famoso salto de 5 cm que pega coleguinhas despercebidos e lança você mais para o fundo da fila se torna mais raro.

Me lembro quando eu tinha 13 anos. Até os 15 anos eu cresci loucamente, passei todos os meus amigos. Cheguei em 1,80 m e achei que chegaria em 2,00 m. Pena que não foi assim. Parei de crescer. Meus anos de glória viraram apenas uma lembrança quando crainças com o crescimento menos acelerado começaram a me passar, hoje em dia amigos meus que cresceram de vagar até os 18 anos são quase da minha altura, enquanto eu cresci desde os 16 apenas uns 2 cm, teve bixão crescendo 10.

Em posts futuros vamos tratar das competições físicas subistitutas: Quem é mais magro; A brincadeira atual dos jovens adultos, quem é mais forte; A brincadeira dos adultos, quem tem mais dinheiro; Por fim a dos velhos, quem tem mais cabelo.

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Apr 01 2008

Primeiro de Abril, o maior espetáculo da Terra.

Published by Nigel Goodman under textos

Não existe nada melhor do que o primeiro de abril, você sacaneia geral e as pessoas ainda se divertem. Se todos os dias fossem primeiro de abril o mundo seria um lugar melhor.

Imaginem esta situação: O sujeito esta lá feliz da vida procurando um lugar pra estacionar e aparece o flanelinha:

- Pode colocar aqui amigo.

Ai o maluco estranha, né? Fila dupla num lugar proibido estacionar é foda.

- Pô, eu não vou ser multado não cara?

- Que isso!? Eu trabalho aqui a vida toda rapaz. Pode confiar.

O cara deixa o carro, vai no puteiro em frente e faz a festa. Beija a puta na boca, chama de meu amor, diz que vai levar pra casa e quando ele ta saindo da parada de mãos dadas com ela…

- Caralho estão rebocando meu carro! Aí flanelinha seu maconheiro… Filho da puta… Maconheiro… Eu vou rachar você!

- Pô cara… Era sacanagem.

Sacanagem ou não, o namorador de puta vai lá e arrebenta o maluco. Chuta ele caído e taca fogo nele. Nossa!

Agora, esta mesma situação, no primeiro de abril:

- Caralho! tão rebocando meu carro!

- Hahaha! Primeiro de abril! Ali não podia estacionar não.

- Hahaha! Muito boa.

Nisso a puta vira e fala:

- Hahaha! Feliz primeiro de abril. Eu não sou mulher porcaria nenhuma. Eu sou um transexual operado e tenho AIDS.

-Hahaha! Muito boa! Eu sempre caio nessa.

Viram? Primeiro de abril salvaria o mundo dessa violência dos tempos modernos. Sim, salvaria.

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Mar 13 2008

Alistamento militar

Published by Nigel Goodman under Dia a dia, textos

Esses dias eu me lembrei que eu ainda não busquei meu comprovante de reservista. Já fiz tudo que eu tinha que fazer. Já até paguei a taxa. Só falta ir lá buscar, realmente. Eu já tentei fazer isso uma vez há 4 anos, mas como eu não consegui eu me desmotivei.

Para as mulheres que não estão entendendo nada, eu estou falando de um papel relacionado ao alistamento militar. As mulheres podem fazer todos os trabalhos que os homens fazem, mas elas ainda não passam uma tarde inteira em pé no sol esperando pra ver se o saco vai inchar. Acho que isso nos dá o direito de mijar pra fora do vaso de vez em quando.

Eu já tentei entrar para o exercito e não consegui. Fiz a prova para a EsPCEx, mas não passei. Mas ai é que está, eu queria entrar nessa época. No alistamento eles te obrigam a entrar no exército e não importa os seus outros planos. Morrer pela pátria. É um ato de nobreza, colocar os outros acima da própria vida, mas se você não for uma pessoa nobre você vai do mesmo jeito.

Quando você chega no alistamento a primeira coisa que eles fazem é colocar você em uma fila. Depois que todos estão em fila alguém vem e grita algumas informações. Isso são duas das 3 especialidades dos militares: formar filas e gritar. A terceira especialidade é marchar, mas eles só levam a fila para o pátio interno algumas horas depois. Quando você chega no pátio interno você continua parado mais algumas horas esperando alguma coisa acontecer. Enquanto isso você vê vários soldados correndo em filas, sempre gritando alguma coisa.

Depois de aproximadamente 3h esperando em pé finalmente o alistamento começa. A primeira coisa é o exame dentário. As pessoas vão uma a uma até um militar disfarçado de dentista e mostram a boca, ele olha rapidamente e a pessoa então passa a formar uma nova fila alguns metros mais para lá. O propósito é ver se você tem uma quantidade certa de dentes, de forma que não influenciem a estética ou a mastigação. Depois que todos passam pelo dentista, e algumas pessoas de aparência bizarra são destacadas do grupo, existe um intervalo de mais uma hora.

Agora, um militar mais graduado se aproxima da fila com uma prancheta. Ele grita mais algumas informações e em seguida (leia mais meia hora) grupos de aproximadamente 20 pessoas subiam para o exame médico.

O exame médico é a pérola do alistamento. Todos juntos em uma sala. Fiquem só de cueca, e quem não estiver usando cueca pode ficar de calça, como fez um sujeito de calça jeans.
Fica a dica para as próximas gerações: combinem todos de ir sem cueca. Muito mais agradável. Com todos de cueca o militar fantasiado de médico começa a passar de um por um pedindo para que as pessoas abram os braços, fechem os braços, toquem no chão e levantem e assoprem. Levantem e assoprem? Abaixar a cueca, segurar o pênis elevado, tapar a boca com a outra mão e assoprar com força para ver se o saco não incha. Aparentemente pessoas que inflam seus órgãos reprodutores não podem virar heróis.

Mas quando chegou na minha vez de inflar o saco algo diferente aconteceu. Quantos graus você tem. Isso se referindo aos meus óculos. Tenho 3,75. Depois que eu disse isso o médico praguejou e invés de me mandar assoprar me mandou para uma outra sala.

Vou resumir esta parte. Me mandaram esperar em baixo de uma arvore com outras pessoas que tinham sido liberadas por invalidez. Se teu saco incha ou você usa óculos, você é inválido para o exercito e gente inválida não serve pra tomar tiro na cara. Esperei por 1 hora para receber um cartão carimbado. Depois disso esperei por todos os outros que estavam fazendo o alistamento, mesmo eu já tendo feito tudo que eu devia fazer. Depois que todos estavam lá fora um militar se aproxima gritando e manda formar nova fila. Meia hora na fila alguém descobre que lá na frente as pessoas estão tirando identidade. Mas eu já tenho identidade. A fila era só para quem não tinha identidade, mas por via das dúvidas os militares acharam melhor colocar todos na fila, até que por conta própria a gente descobrisse que a fila era inútil.

Vou terminar aqui, e olha que eu teria mais coisas para contar.

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Feb 07 2008

Gambás

Published by Nigel Goodman under textos

Este é o terceiro post de uma série, mas eu duvido que vá fazer mais sentido pra quem ler os outros dois. De qualquer forma: Macacos e Codornas.

Doutor Fleury desde pequeno foi muito fresco. Lembro-me de uma viajem de fim de ano que fizemos juntos. Fomos de carro até o Paraguai. Que viagem incrível. Doutor Fleury vomitou apenas duas vezes durante o caminho. Mesmo sendo Fleury um personagem imaginário com quem converso, obriguei meu pai a parar para lavarmos o carro nas duas vezes.

Com tamanha quantidade de água utilizada levianamente, é desnecessário descrever os danos no estofamento. O cheiro era insuportável, tornando comum carros se descontrolarem durante suas tentativas de ultrapassagens. Os motoristas em questão simplesmente se perguntavam se valia, realmente, viver se sujeitando a tais odores.

Paramos certa tarde para nos tratarmos das seqüelas deixadas pelo cheiro forte ao qual fomos expostos por prolongado período de tempo. Cheiro que fizera inúmeros motoristas perderem suas vidas. Deixamos o carro próximo a uma lata de lixo para disfarçar. Não fui atendido. Meu pai falou que só trataria de nós dois, mas durante a minha consulta convenci o médico a tratar de Fleury, que implorava para que eu desse a ele meu lugar. Enquanto estávamos sendo atendidos nosso carro foi invadido sem que soubéssemos. Invadido pela pior espécie de ser vivo do planeta. Invadido por um Didelphis marsupialis. Infelizmente o estofado do carro cheirava igual a uma fêmea micurê no cio. O macho, devidamente excitado, invadiu o carro com a errônea idéia de que ia faturar uma quenga.

- Oh Deus! Vim aqui com o intuito de faturar uma quenga, e me deparei com um estofamento cheirando a sexo. – O micurê gesticulava e falava sozinho. Parecia desolado. – Estou aqui, atendendo o chamado da mãe natureza, vim aqui pronto para desempenhar o meu papel destinado, mas fui enganado. Por que Deus? Por que?

Deus não sabia responder aquela pergunta, logo não se manifestou para o pobre micurê, deixando ele vitima de sua própria excitação. Infeliz do leitor que imaginou que não se tratava de masturbação, pos foi esta a única saída encontrada pelo micurê.

Eu e Fleury vínhamos conversando. Contando piadas descontraídamente. Eu estava prestes a contar a clássica piada do pinto que não tinha uretra foi se masturbar e explodiu, quando avistei uma forma peluda em êxtase dentro do carro.

- Hei! O que é isso que você pensa que esta fazendo, seu pervertido? – Disse chocado ao me dar conta do que estava acontecendo.

- Olha aqui meu rapaz…

- Já olhei mais do que eu queria. Saia do meu carro

- Procure entender o que aconteceu. Foi tudo um mal entendido. Seu carro tem o cheiro de uma fêmea micurê no cio.

- Se o meu carro cheira ou não como uma fêmea no cio, o problema é meu. Não quero ninguém se masturbando aqui dentro. E pra falar a verdade eu nem sei o que é um micurê.

- Micurê é como é chamado o gambá nesta região. – Explicou Fleury, que até então estava calado, encantado com a cena que presenciava.

- Meu carro tem cheiro de gambá no cio?

- Aparentemente. – Dizia sem tirar os olhos do gambá

Fleury foi sempre muito fresco, mas neste dia ele se excedeu. Enquanto conversávamos o gambá se apressou e conseguiu atingir o orgasmo. Uma sensação mágica, inclusive para os marsupiais, tomou conta de seu corpo maciço. Ejaculou. Um jato certeiro acertou Fleury no rosto.

- AH! Fleury! Seu rosto! – Gritei, com nojo de ajudar meu amigo. Sentimento que perdura durante todo nosso relacionamento, ganhando força através do tempo. O nojo

- É isso que você consegue quando atrapalha o curso da natureza. – declarava o gambá, transparecendo felicidade por ter a sorte de acertar a face de seu inimigo com munição tão oportuna.

- Se eu fosse você eu matava esta criatura imunda Fleury.

- Não faça isso. Deixe-o ir. Ele fez o que tinha que ser feito afinal. – Fleury sorria. Seus olhos estavam vidrados. Ele procurava esconder as lagrimas de felicidade.

Ainda me lembro das interjeições de prazer daquela flor, que não lavou o rosto durante toda a viagem. Desde esse dia não viajo mais de carro com Fleury.

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Feb 05 2008

Avião de volta

Published by Nigel Goodman under Dia a dia, textos

Estou de volta no Rio. Viagenzinha tranqüila de volta. Avião normal desta vez. Mil vezes melhor que o troço do exército que eu peguei para ir, o avião para voltar não fez a minha namorada achar que ia morrer. Uma melhora substancial.

Existe muita gente que morre de medo de voar de avião, muita gente que acha muito legal e a maioria que simplesmente voa de avião e não pensa muito sobre isso. Eu pessoalmente acho muito chato. Para o piloto deve até ser legal, mas para quem está sentado lá atrás fazendo nada é bastante tedioso.

Eu entrei, sentei no meu lugar, fiquei levemente irritado e perguntei para a minha namorada o que eu iria fazer. Ela não compartilha dessa minha visão deturpada das coisas, ficou levemente irritada e disse que aquilo era um avião para eu sentar e ficar quieto. A mulher manda, eu obedeço, mas nem fone de ouvido tinha no voo.

O avião é como se fosse um elevador gigantesco. As pessoas entram, a porta fecha e daí em diante você fica olhando para frente sério esperando a porta abrir. Mesmo que você esteja voando com algum conhecido não é tão simples assim conversar normalmente sabendo que as pessoas mais próximas provavelmente estão acompanhando a sua conversa. E é muito difícil aceitar quando você fala algo engraçado e alguma pessoa perto ri do nada.

Eu só tenho dois desejos quando o avião decola: Primeiro que ele não se transforme numa gigantesca bola de fogo e se espatife em algum lugar, e segundo eu desejo que nenhum desconhecido puxe conversa comigo. Nada contra os desconhecidos, já que todos os conhecidos já foram um algum dia, mas se o cara for um mala não tem pra onde fugir. Você tem um lugar marcado do ladinho de um imbecil, e por mais que você vá ao banheiro não tem como passar o voo inteiro lá dentro. Também me sinto muito mal em cortar uma conversa. Não sei. Não consigo falar algo como: “Muito interessante mesmo. Calma só um pouco que eu vou colocar esse fone de ouvidos aqui, reclinar a cadeira. Pronto. Eu não vou estar prestando mais atenção em você de agora em diante, mas se quiser continuar falando está ótimo por mim.” Não sou uma pessoa boazinha, mas não consigo ser gratuitamente escroto com alguém que estava tentando ser simpático. Felizmente o desconhecido na minha fileira parecia estar dopado a viagem inteira e eu não precisei me preocupar com isso.

Quando o avião pousou aconteceu uma coisa que eu nunca tinha visto pessoalmente, mas falaram que depois que muita gente andou morrendo por ai se tornou uma coisa normal. As pessoas aplaudiram o fato de não terem morrido no pouso. Sério mesmo. As vezes durante algumas apresentações de stand-up eu noto que algumas platéias aplaudem com mais facilidade que outras. Mas aplaudir porque não morreu já está começando a desvalorizar muito a coisa. Daqui a pouco vai ter gente aplaudindo até por do sol. Espera… Isso já tem. Se no mínimo fosse difícil para o sol se por, fosse algum tipo de esforço para o sol, mas é a única coisa que ele tem feito desde sempre.

Agora, só para terminar, alguém pode me explicar porque são proibidas pessoas armadas nos aviões? Me faz duvidar dos critérios que são utilizados para dar armas para as pessoas. Parabéns. De agora em diante você é apto a portar armas por ai. Menos em aviões. A gente confia que você não vai matar ninguém no dia a dia, mas sabe-se lá o que você vai fazer dentro de um avião com todo aquele tédio.

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Jan 07 2008

Parem o mundo

Published by Nigel Goodman under textos

Parem o mundo que eu quero descer. Essa é uma das coisas mais irritantes que eu já ouvi faz um bom tempo. Reparem bem na frase. Essa é a típica atitude idiota que faz do mundo um lugar insuportável para começar. Problema dos outros 6,5 bilhões de pessoas que estão satisfeitas com o deslocamento do planeta, nós vamos ter que parar tudo porque umas 10 mil pessoas resolveram que querem descer. Quer saber de uma coisa? Problema de vocês. Pulem com o mundo andando. Gente egoísta. Sem falar que parar o mundo para estas pessoas descerem implicaria na terra sendo atraída diretamente para o sol, e ai já era.

Tudo isso pra que? Pra onde essa gente acha que vai depois que descer da terra? Ta achando que é igual fugir de casa que você da uma volta no shopping, dorme na casa de um amigo e depois volta pra casa fazendo cara de rebelde? Se desse pra parar o mundo, mesmo implicando em morrer queimado no sol e essas coisas, eu parava, só pra ver a expressão na cara dessas pessoas. Parou, agora desce ai. E não ia ter roupa de astronauta não. Esse pessoal ia descer no espaço e explodir por causa da pressão.

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