Archive for January, 2009

Jan 30 2009

O enterro de Anderson Leitão

Published by Nigel Goodman under Anderson Leitão

 Anderson Leitão morreu. Foi vitima de alguma espécie de maníaco. A polícia classificou o crime como latrocínio. Uma amiga de Anderson Leitão prestou depoimento dizendo que o criminoso era um mendigo e estava obviamente drogado. A polícia deduziu que o mendigo havia tentado assaltar Anderson, mas este reagiu enfurecendo o assaltante que o atacou brutalmente e em seguida fugiu com a sua carteira. Ninguém sabe ao certo quais os documentos e quanto dinheiro havia na carteira.

Apesar de trabalhar em um jornal, não saiu nenhuma nota de sua morte. O editor do jornal não gostava de notas fúnebres. Ele achava que deixavam o jornal pesado, o que não era bom. Para o editor o jornal era o lugar onde as pessoas gostavam de ler amenidades e se informar sobre o tempo no final de semana. Ninguém conseguiria se divertir sabendo que Anderson Leitão havia morrido, ninguém.

Apesar de não dar uma nota se quer no jornal, o editor, assim como todos os outros funcionários da redação sentiam muito carinho e admiração por Leitão. Como Leitão era sozinho, solteiro e sem parentes, resolveram que se juntariam para fazer um velório digno de seu tão querido colega.

No dia seguinte todos estavam reunidos no cemitério. Um rapaz distribuía cópias de algums entrevistas de Anderson. Muitos choravam. Uma pequena senhora que ninguém nunca havia visto antes tentou se jogar dentro da cova de Anderson, mas foi contida por um estagiário. Uma garota deslumbrante mentia sobre aventuras sexuais que nunca ocorreram. Todos estavam lá e estavam tristes, mas ao mesmo tempo felizes, pois estavam celebrando a vida de Leitão, e não sua morte. As pessoas estavam satisfeitas de poder dizer suas últimas palavras para um amigo tão querido e estavam satisfeitas em saber que Anderson estava tendo um enterro digno. Claro que Anderson preferiria ser cremado e ter suas cinzas jogadas no mar, e também não conhecia metade das pessoas ali e não se importava com a outra metade, mas ninguém sabia disso e estavam todos lá.

O chefe de Anderson foi o mais emocionado de todos na cerimônia. Ele subiu em um pequeno palanque e começou a contar histórias emocionadas. Chorou bastante e terminou dizendo:

- Anderson, se por acaso você estiver ouvindo, eu gostaria de uma entrevista com o Diabo para semana que vem.

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Jan 27 2009

Armandinho 2

Published by Nigel Goodman under Armandinho

 A busca por um pai pode ser uma aventura e tanto. Não é fácil, pode levar uma vida. Nada garante, também, que quando a busca terminar você terá aquilo que esperava. Muitas vezes seu pai é realmente um maucaráter e fugiu de casa pra foder com as vagabundas da rua. Muitas vezes é isso mesmo. Mas Armandinho sabia que seu caso era diferente. Sua verdade seria outra. Armandinho iria até o outro lado do mundo se fosse preciso encontrar seu pai, um pirata médico, que recolocará seu olho e lhe amará de verdade. Armandinho não vai desistir.

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Jan 25 2009

Drops like it’s hot

Published by Nigel Goodman under Geral

 Outro dia eu estava de terno indo ao fórum e um cara perguntou se eu era advogado. Disse que era estagiário e ele me perguntou o que era isso. Estagiário é uma espécie de Miles Prower de terno. Foda-se se ele caiu na água, ele não tem vidas mesmo.

Eu acho engraçado as pessoas que acreditam em uma grande conspiração no Big Brother. “Eles estão editando de um jeito que fulano parece malvado, mas quem assiste ao ppv sabe da verdade.”… Em primeiro lugar quem assiste o ppv de Big Brother não só não sabe a verdade como não sabe dividir com casas decimais

Alguém está curioso pelo final do Armandinho? Não estou pretendendo terminar aquilo lá não.

Internet voltou ao normal. Esperem o Ronald voltar de SP que será gravado o Repórter Bêbado novo.

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Jan 24 2009

O técnico veio arrumar minha internet

Published by Nigel Goodman under Dia a dia

 Hoje veio o técnico aqui em casa e resolveu meus problemas de internet. Na realidade esse foi o quarto técnico que vem aqui em casa, desde dezembro, pra resolver este problema.

Acho que eles recebem algum treinamento especial, ou alguma coisa do gênero. Três técnicos conseguiram entrar e sair sem resolver nada. Três. Quando você vê eles já deram uma desculpa e fugiram.

 A coisa é espetacular. Os caras tem a maior cara de pau do mundo. O primeiro entrou, disse que o problema era no modem, mas que ele não iria resolver. WTF?! Não resolveu e foi embora.

Conseguimos autorização para trocar o modem e mandamos vir mais um técnico. Ok. O técnico veio, mas por algum milagre do capeta o modem estava funcionando neste dia. Ele disse que estava tudo perfeito e que não iria trocar nada. Isso mesmo.

Ligamos mais uma vez para a central e veio um terceiro técnico. O cara veio, olhou e disse: o problema não é do modem, é lá em baixo no prédio. Ficou de resolver e voltar, mas nunca mais voltou. Ou o garoto com síndrome de down aqui do prédio matou ele ou ele me deu uma volta e fugiu.

Hoje veio o quarto técnico. Ele sentou, viu que o problema era do modem. Arrumou o cabo que estava ruim também. Trocou o modem e… A porra do modem que ele trouxe estava quebrado também.

Nessa hora o tempo parou. Senti que o cara ia conseguir escapar mais uma vez.

Ele disse que iria buscar um outro no carro e que retornaria. Retornaria? O ultimo que disse isso foi devorado pelo débil mental. Insisti que estava esperando por ele e ele se foi. Mas retornou! Retornou e consertou o modem. Depois perguntou porque o outro técnico não havia trocado o modem.

De acordo com a minha namorada, o último técnico não havia trocado o modem porque eu sou frouxo e só podia estar de sacanagem de deixar 3 técnicos irem embora sem resolver o problema da internet. Provavelmente ela tem razão.

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Jan 13 2009

Cuide da sua lanchonete

Published by Nigel Goodman under textos

 Se você tem uma lanchonete você deveria seguir as dicas que eu vou dar. São dicas de como ser feliz com sua lanchonete e agradar seus clientes… Não sou bom com indiretas. Bob’s, o atendimento de vocês me envergonha como ser humano.

Não me entendam mal, eu também sou contra aquelas perguntas sem sentido nas entrevistas de emprego, mas eu só peço um mínimo de critério gente. Acho que na hora de contratar os funcionários deveriam manter em mente que o Bob’s é uma lanchonete e não um baile funk. Esta foi a dica número 1.

Outra coisa que vocês deveriam perceber é que o lanche demora muito para ficar pronto. Muito mesmo. O que se torna muito desagradável, pois significa que terei de passar mais tempo próximo aos caixas. A demora também gera situações desconfortáveis como a que eu vou narrar.  Primeiro o ajudante insinuou que o pedido não havia sido adiantado – depois eu falo sobre adiantar o pedido. O caixa ficou muito chateado e disse:

- Adiantei sim. Estou aqui me esgoelando. Adiantei na frente do cliente. Ai se ele disser que eu não adiantei eu vou lá e faço um barraco.

Agora sobre adiantar o pedido… Eu pedi um lanche e o caixa gritou o nome do lanche seguido da palavra “adiantando”. Sério, como isso pode ser adiantar? Existe alguma situação em que eles fazem você esperar só mais um pouquinho para pedir o seu lanche? Sério, vocês estão destruindo o significado da palavra adiantar. Se você começa a fazer alguma coisa na hora quer você deveria começar a fazer isso não se chama adiantar.

Como o cozinheiro estava demorando, o ajudante, que é o profissional que coloca o seu lanche na bandeja, começou a ficar irritado. Chateado com a demora ele disse:

- Você está amarradão de cola?

Por favor, vou repetir a necessidade de se treinar seus funcionários. Uma caixa já gritou com a minha namorada uma vez. Pensei em reclamar com o gerente, mas ele estava muito entretido falando sobre a micareta da Ivete. Quando o pior acontecer não digam que não avisei. No dia em que os funcionários começarem a assaltar os clientes já vai ser tarde de mais.

Outro momento imperdível que eu presenciei no Bob’s por estes dias foi quando uma caixa perguntou para uma mulher, com a voz calma e tranqüila, se ela já tinha sido atendida e a mulher respondeu quase gritando: “não, eu estou esperando a meia hora!” E ela de fato estava esperando com o cartão na mão a muito tempo.

A mesma caixa em conversa com outra caixa reclamando do dia que estava tendo:

- … E teve aquela mulher que me deu um banho hoje cedo.

Juro que ela mereceu o banho. Mas coitada da mulher que gritou com ela. Na saída da loja bateu um vento em um tripé que segurava um cartaz de promoção do Bob’s e ele caiu em cima dela. Até os objetos te tratam mal nesta loja.

E o ovomaltine, que sempre foi indiscutivelmente sensacional, e desta vez sem sarcasmo, hoje eu assisti um funcionário ajudando com a mão para não transbordar do copo na hora de bater. Alguém avise essa gente que eles trabalham com comida, por favor.

Isso tudo porque quando eu era pequeno eu era entusiasta do Bob’s. Hoje em dia eu tenho nojinho. Quem sabe se a gente começar a falar mais abertamente sobre estes abusos as pessoas não ficam com vergonha e começam a investir no atendimento?

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Jan 11 2009

Armandinho

Published by Nigel Goodman under Armandinho, Contos

 Armandinho, jovem sem olho e sem pai, vive a vida dura de quem perde o olho e o pai e se vê obrigado a procurar pelos dois. Armandinho deve procurar pelo seu olho e por seu pai pelas ruas deste país enorme, quem sabe do mundo. Armandinho tem uma tarefa difícil pela sua frente. Não chore Armandinho. Armandinho tem a força de vontade do peixe salmão que nada contra a correnteza, e depois nada a favor dela de novo.

Armandinho não precisou ir muito longe para achar seu olho, esta é a realidade. Diferente de seu pai, que armadinho nunca conheceu, seu olho sempre ficou preso em sua cabeça e, mais uma vez diferente de seu pai, que já estava desaparecido a pelo menos 13 anos, idade de Armandinho, seu olho fora arrancado há pouco tempo. Seu olho estava caído junto ao seu pé esquerdo. Armandinho recolheu seu olho do chão e o enfiou de volta na cara. O olho não funcionou. Armandinho então o colocou no bolso e pensou que se seu pai fosse médico ele provavelmente poderia recolocar seu olho de uma forma que este funcionasse novamente. “Será que papai é médico?” Pensou armandinho.

Dias se passaram, seguidos por anos. Armandinho já era um adulto. Ele havia largado a escola para procurar o seu pai e agora vivia a vida de um andarilho. Vivia da boa vontade dos outros.

Armandinho fugiu de casa criança e passou alguns meses vagando sem rumo e sem um plano. Assim ele não teria qualquer êxito. Passou suas primeiras dificuldades sem baixar a cabeça. Com o tempo Armandinho passou a seguir pistas. Seu pai era um homem, no mínimo 13 anos mais velho que ele, e que havia morado em Vitória em 1996. Infelizmente grande parte da população de Vitória poderia ser pai de Armandinho e com isso os anos se passaram. Procurou também por cidades vizinhas e não tão vizinhas assim, até que um dia uma senhora lhe disse:

- Uma vez eu vi um homem caolho igual a você.

Armandinho percebeu que havia ignorado um fato obvio. Por serem pai e filho, ele seria então muito semelhante a seu pai. Armandinho se virou e olhou seu reflexo no vidro de um carro. Seu pai era igual a ele. Cabelos compridos e mal cuidados, uma barba emaranhada e caolho. Armandinho sentou na calçada e chorou. Seu pai era um pirata e nesse momento deveria estar em algum lugar em alto mar.

Apesar da conclusão de Armandinho ser um absurdo genético, ela não chagava a ser impossível, muito pelo contrário, Armandinho estava certo. Agora ele só precisaria de um barco.

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Jan 02 2009

Ano novo

Published by Nigel Goodman under Armandinho, Contos

Foi idéia de um pai de família comemorar o ano novo. Ele juntou toda a sua família em um velho Gurgel e dirigiu por 7 horas até o litoral capixaba. A viagem foi um verdadeiro inferno. As crianças gritaram o tempo todo, Armandinho quase perdeu um olho, sua mulher grávida parava de meia em meia hora para urinar. Foi um inferno mesmo.

A família chegou na praia e logo as crianças saíram correndo e se espalharam. A vó Célia correu atrás das mais novas para que elas não se afogassem. Prima Júlia se agarrou com uma garrafa de pinga e desapareceu. Parmezão e Chocolate, os primos funkeiros, ficaram junto do carro que agora tocava o pancadão no último volume. Armandinho perdeu um olho.

O pai de família por alguns momentos chegara a hesitar, mas agora estava confiante de que esta seria a melhor viagem em família da sua vida. Pegou o espumante e foi até um quiosque perguntar que horas eram. Eram 6 horas. Houve um erro de calculo em algum momento, isto é certo, mas 6 horas passam rápido e logo seria meia noite.

7:20 as crianças começaram a enjoar da praia. 5 crianças já tinham se afogado e o resto estava com medo de entrar no mar. Vó Célia já não tinha mais certeza de quantos netos tinha e não estranhou  falta de alguns. O importante é que as crianças sobreviventes queriam voltar e Armandinho realmente precisava ver um médico, mas o pai de família disse que não. Ele disse que todos precisavam esperar o ano novo, que era um momento mágico de confraternização, e que ninguém sairia de lá antes de meia noite.

Quando faltavam poucos segundos para a virada o pai começou uma contagem regressiva animado. Dez… Nove… Oito…

- O que vai acontecer quando chegar em zero?

- A gente grita e se abraça minha filha.

- Por que?

- Porque é ano novo.

- Mas o que tem de especial ser ano novo?

- Como assim o que tem de especial?

- É só uma meia noite qualquer.

- É ano novo! Eu vou estourar esse espumante aqui e tua mãe vai gritar um “ê” bem animado, você vai ver.

- Só isso?

- É. O que mais você queria?

- A prima tem razão Tio Beto – disse Parmezão. – O senhor criou a maior expectativa em todos.

- Eu mesmo estava achando que você ia se suicidar meia noite – completou Sandra, a mulher grávida.

- É mesmo pai. Nós estamos esperando uma grande surpresa – disse Armandinho, o menino caolho.

- Pai, que horas são?

- Puta que pariu! Meia noite e 5.

- Está vendo só. Já é ano novo e você nem percebeu. Que merda de comemoração pai. Nada de especial nessa porcaria de ano novo.

- No meu relógio ainda faltam 3 minutos – disse Chocolate.

- No meu faltam 7 – disse Sandra.

- Eu acertei o meu relógio pelo relógio do posto de gasolina gente.

- Mas o relógio do posto podia estar errado – interrompeu Armandinho.

- Será? Mas como vamos saber quando for ano novo?

- Pra que você quer saber essa estupidez? Não tem nada pra comemorar.

Nesse exato momento Prima Júlia, que tentava operar o bujão de gás para aquecer um lombo de porco na farofa, explodiu. Por um momento houve um silêncio mágico e todas as crianças sorriram. A felicidade tomou conta de todos, pois eles sabiam que era ano novo. O pai estourou o espumante e a família se abraçou.

- Eu te amo pai – disse Armandinho.

- Eu não sou teu pai.

Armandinho chorou com o olho que lhe restava.

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