Dom Casmurro
A vida é difícil. Né fácil não. É igual uma roda de capoeira, tem que ficar esperto pra não levar pernada. Eu sei que essa frase é doente, mas eu acho muita graça de falar isso como se fosse uma colocação séria.
- Vocês viram aquele avião que caiu com 200 pessoas no Sudão?
- Meu Deus, mas que tragédia!
- É a vida, fazer o que. É igualzinha a uma roda de capoeira – E nessa parte rola uma pausa dramática, o olhar corre diretamente para um vazio, pouco a cima e a esquerda. – você tem que ficar esperto pra não levar pernada.
- Oh!
Acontece que as coisas não são fáceis, você tem que correr atrás. Você tem que se dedicar, sabe como é? A verdade é que eu não sei como é tanto assim. Outro dia eu cruzei com um livro que me serviu como uma garantia de que eu estava no caminho certo. “Como falar dos livros que não lemos?” é o nome do livro, e ele é brilhante. Defendi isso durante todo o ensino médio. Não li nenhum dos livros que eles me obrigavam a ler durante o ensino médio, nenhum, mas mesmo assim eu conseguia sempre notas altas e pequenos elogios no topo da prova. Meu elogio preferido foi um “boa leitura” que acompanhava uma nota 9, e ficava no topo de uma prova sobre um livro que eu nem sabia o nome dos personagens.
Vou dar uma pausa aqui pra me abrir com você. Eu de maneira nenhuma acho que isso é uma coisa inteligente. Eu realmente não me acho, e não gosto das pessoas que se gabam de não lerem livros. Eu na realidade leio, mas são poucos livros que realmente me interessam. Faltam livros bons como a série do Guia do mochileiro das galáxias (que foi prêmio em uma promoção no Grande Abóbora recentemente). Sem falar que eu já tenho dificuldade de gostar de livros de ficção. Prefiro os livros que são sobre alguma coisa que realmente exista ou tenha acontecido. Me recuso a ler um livro sobre um sujeito com um apelido de Dom Casmurro. Sério, quem tem um apelido desses? Quem coloca um apelido desses em alguém? Queimem esse livro tosco.
O que eu realmente acho é que você não é obrigado a ler contra a sua vontade. Faça o que te fizer mais feliz.
Mas existem pessoas por ai que não querem que você seja mais feliz. Não. Existem professores, e coleguinhas nerds, e mães autoritárias, e toda essa gente que vai vir falar da importância de Machado de Assis. Sabe quem foi importante também? William Gregor. Muito importante. Mundialmente importante. Mas quem se importa com as suas preferências. E eu não estou falando que Machado de Assis não foi importante, mas eu aposto que William Gregor não leu Dom Casmurro. Entendem onde eu quero chegar? Mas não são todas as pessoas que entendem, são? O que fazer então?
Eu não vou falar para você mentir, só defender sua ideologia. Vá direto nas questões centrais do livro. É um caso de traição e corno desconfiado e rancoroso. Isso não pode ser muito diferente de tudo aquilo que a gente vê no programa Márcia. Veja você que eu não assisto o programa Márcia, mas acabei de fazer você acreditar que sim, assim como nós vamos fazer com que acreditem que lemos Dom Casmurro. Vou agora, calmamente, querido leitor, ajudar você a fazer uma boa prova. Para isso vamos precisar apenas da nossa boa e velha Wikipédia.
Mais uma vez, antes de começarmos, preciso explicar uma coisa: Você precisa entender o que “suas próprias palavras” significa. Você, pelo amor de Deus (mais uma vez usando seu nome em vão), não deve nunca copiar nada diretamente, a não ser que você esteja copiando de alguém tão burro quanto você. As suas próprias palavras são escassas, coloquiais e gramaticalmente erradas. Você não é doutorado em literatura, muito menos o melhor aluno da sala. Nós aqui estamos tentando fazer você passar por alguém que leu um livro, não por algum tipo de criança prodígio. Menos é mais. Vejamos um exemplo ilustrativo: Se sua professora te perguntar o que é o amor você nunca deve responder:
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Existem vários problemas em dar esta resposta. Ninguém vai acreditar que você tem esta capacidade poética e as pessoas já conhecem este poema. Muito provavelmente a sua professora conhece a página da Wikipédia, mas não se desespere.
Vamos agora ao Dom Casmurro, antes que você encha o saco e vá fazer outra coisa.
Em Dom Casmurro, encontramos a dúvida sobre a existência do adultério de Capitu, não havendo nenhuma cena que o comprove, permanecendo apenas como suspeitas. Sendo escrito em primeira pessoa, apresenta apenas a interpretação dos fatos presenciados pelo narrador-personagem, não apresentando em nenhum momento outras visões. O fato de o autor escrever o romance em capítulos curtos, com títulos explicados posteriormente e de utilizar citações de obras importantes e personagens históricos, em frases curtas, facilita a leitura e prende o leitor.
Machado de Assis permite, ao deixar o final com uma questão em aberto, que um mesmo leitor retome o livro e tire diferentes conclusões a cada vez que o relê.
Resumindo você pode falar o que você quiser sobre esse livro. Menos que ele é ruim.
O romance Dom Casmurro além de estar entre as grandes obras da Literatura Brasileira, é considerado como a obra-prima de Machado de Assis.
O importante é você prestar atenção que o nome do personagem é Bentinho e é ele que narra a história, e ele acha que é corno. O livro inteiro é um cara que se acha corno contando a própria história. Mas ele não tem certeza que é corno. Ele aposta que é, mas não dinheiro, sabe? Era isso que o Machado de Assis queria, um grande livro sem final.
Assim sendo, fuja para o lado psicológico. Use frases como: é possível ver sua paranóia crescendo com o tempo, ou, o personagem cada vez mais se afunda em sua depressão, sem conseguir uma resolução para a sua questão. Em relação à Capitu vale dizer que é difícil ter uma idéia precisa de seu verdadeiro caráter, porque tudo que sabemos dela é manchado pela visão que o velho Bentinho tinha dela. Vale daí dizer que ,sendo assim, é impossível chegar a uma conclusão, pois como tudo que se sabe passa pelo filtro da mente perturbada de Bentinho, não se tem como saber ao certo o que verdadeiramente se passou, de forma imparcial e sem estar afetado por um julgamento do personagem.
No fim, você vai terminar sua prova, se formar e nunca mais vai precisar tocar no assunto do livro de novo, a não ser que você queira.
Capitu traiu Bentinho? Capitu não traiu Bentinho? Ronaldo fez sexo com os travestis? Ronaldo não fez sexo com os travestis? Adoro quando a vida imita a arte.



Nigel, me identifiquei. primeiro pq eu nunca lia os livros e sempre ia super bem. e ate hoje, na faculdade, faço isso qdo precisa. na boa, fazer prova de livro é captar a essencia, fazer uma pesquisa basica e ler umas 3 resenhas diferentes.
e quanto ao livro, ‘como falar dos livros que nao lemos… entao, eu tenho. eu até li. ou nao li, enfim, vc nunca vai saber, pq vou conseguir falar dele do mesmo jeito. de qqer forma, o livro tem um conceito beeem interessante =)
ah, e qto ao lance do notebook… corri atrás e consegui a troca.
bj
Estava falando sobre isso um dia desses com a minha namorada. Gosto muito de ler sobre qualquer coisa, mas tem que ser por vontade própria. Ler por obrigação é foda.
No ensino médio tive que ler “O triste fim de Policarpo Quaresma”, um livrinho que deve ter umas 50 páginas. Se fosse algo que eu quisesse ler, duraria um dia na minha mão, mas como foi por obrigação demorei praticamente um ano para ler o livro.
E até hoje tenho ódio desse livro…
Certa vez perguntaram ao Machado se a Capitu era traíra mesmo. Ele respondeu: “pergunta pra Capitu”. Genial. Provavelmente mais genial que o livro.
Este post também foi genial. A genialidade vem se banalizando contemporaneamente, repare bem. Mas eu LOL duas vezes ao ler isso.
P. S.: esse singelo textículo vai pro meu irmão adorador de livros com certeza.
@ Ana
Eu só vi a capa e achei bastante legal. Achei que se eu lesse eu ia estar de alguma forma me tornando indigno do livro. Mas quem sabe algum dia.
@ Bruno
Eu li um resumo desse livro também. Livro que eu tenho ódio é a matamorfose do kafka.
@ Lucas
Muito obrigado mesmo. Agora vamos rezar pra que o resto do mundo me aceite também e eu possa então ganhar algum salario mínimo que seja.
Eu recomendo a leitura. Machado de Assis é o meio gênio da literatura brasileira. Sem dúvida. Pode ler que o livro é bom e não é nada chato. Mas ler obrigado é foda, né?
Eu tentei ler Metamorfose também. Ele é dividido em três partes, né? Terminei de ler a primeira e disse: esse livro é um saco. E olhe que eu li livros muito densos, mas nada se equipara a Kafka, de três em três parágrafos, dizendo que Gregor Samsa é um cara submisso (sem safadeza, galera). Parei de ler e digo a todo mundo que achei um saco. Na moral. Quero nem saber o que pensam de mim.
Acho que esse é o meu primeiro comentário sem nenhum toque do humor aqui. É meio chato fazer isso depois de um texto tão engraçado (vou ler esse livro do link), mas não consegui fazer nenhuma piada hoje. Vou no médico amanhã.
Abraço.
É meio não… É o maior gênio. Não tava bem da cabeça.
Ya, welcome, bro. Tentei não rasgar seda, mas este aqui está acima da sua média mesmo. Uau.
Queria muito ajuda para organizar algumas idéias, para tipo julgar a Capitu em uma espécie de tribunal ficticio.