O enterro de Anderson Leitão
Anderson Leitão morreu. Foi vitima de alguma espécie de maníaco. A polícia classificou o crime como latrocínio. Uma amiga de Anderson Leitão prestou depoimento dizendo que o criminoso era um mendigo e estava obviamente drogado. A polícia deduziu que o mendigo havia tentado assaltar Anderson, mas este reagiu enfurecendo o assaltante que o atacou brutalmente e em seguida fugiu com a sua carteira. Ninguém sabe ao certo quais os documentos e quanto dinheiro havia na carteira.
Apesar de trabalhar em um jornal, não saiu nenhuma nota de sua morte. O editor do jornal não gostava de notas fúnebres. Ele achava que deixavam o jornal pesado, o que não era bom. Para o editor o jornal era o lugar onde as pessoas gostavam de ler amenidades e se informar sobre o tempo no final de semana. Ninguém conseguiria se divertir sabendo que Anderson Leitão havia morrido, ninguém.
Apesar de não dar uma nota se quer no jornal, o editor, assim como todos os outros funcionários da redação sentiam muito carinho e admiração por Leitão. Como Leitão era sozinho, solteiro e sem parentes, resolveram que se juntariam para fazer um velório digno de seu tão querido colega.
No dia seguinte todos estavam reunidos no cemitério. Um rapaz distribuía cópias de algums entrevistas de Anderson. Muitos choravam. Uma pequena senhora que ninguém nunca havia visto antes tentou se jogar dentro da cova de Anderson, mas foi contida por um estagiário. Uma garota deslumbrante mentia sobre aventuras sexuais que nunca ocorreram. Todos estavam lá e estavam tristes, mas ao mesmo tempo felizes, pois estavam celebrando a vida de Leitão, e não sua morte. As pessoas estavam satisfeitas de poder dizer suas últimas palavras para um amigo tão querido e estavam satisfeitas em saber que Anderson estava tendo um enterro digno. Claro que Anderson preferiria ser cremado e ter suas cinzas jogadas no mar, e também não conhecia metade das pessoas ali e não se importava com a outra metade, mas ninguém sabia disso e estavam todos lá.
O chefe de Anderson foi o mais emocionado de todos na cerimônia. Ele subiu em um pequeno palanque e começou a contar histórias emocionadas. Chorou bastante e terminou dizendo:
- Anderson, se por acaso você estiver ouvindo, eu gostaria de uma entrevista com o Diabo para semana que vem.





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