Anderson Leitão era um repórter ansioso. Ansioso pelo sucesso. Não gostava de como as coisas estavam e queria acelerar sua vida até o momento de glórias que tinha certeza que chegaria. O futuro com certeza seria um lugar melhor.
Anderson Leitão estava em sua casa. Estava pensando em como faria para ser levado a sério no jornalismo, como faria para ser reconhecido, e de repente um estrondo e um homem apareceu no meio da sua sala de estar. Anderson não teve reação. Olhou para o homem e quando seus olhares se cruzaram o outro disse:
- Oi, eu vim do… Em que ano nós estamos?
- 2010 – respondeu Leitão.
- Do futuro. – O homem sorriu contente.
Leitão ficou alguns segundos observando aquele homem do futuro, que parecia muito feliz pelo fato de ser do futuro, e não do passado.
Quando você viaja no tempo você pode ser do futuro ou do passado. Se você for do futuro isso significa que você é uma pessoa muito legal, um homem que sabe das coisas que ninguém mais sabe. Você traz respostas para as dúvidas das pessoas. Você traz tranquilidade com histórias de um futuro incrível onde os carros voam e os aviões submergem. Ou então você traz esperança, uma chance para mudarmos um futuro apocalíptico. Se você vem do passado você é um idiota. Você não sabe de nada que as pessoas do presente sabem, você não vai entender as tecnologias e vai ficar enchendo o saco perguntando coisas obvias. Você vai baixar vírus no meu computador e será a pessoa mais ingênua do mundo. Tudo que você disser poderia ter sido descoberto através de uma simples pesquisa. Pessoas só vem do passado por motivos cômicos.
O homem que estava na sala de Anderson Leitão era um homem do futuro e isso era uma boa coisa. Anderson Leitão pensou e concluiu que as pessoas gostariam de saber sobre o futuro.
- Posso te entrevistar?
- Claro que sim.
- Primeiro, como é o futuro? Existe paz ou guerra?
- Paz, mas fazemos guerras de 4 em 4 anos para decidir as coisas. Chamamos elas de eleições.
- Como assim guerras de 4 em 4 anos? Isso é terrível.
- De forma alguma. É até bem divertido. Mas as guerras são um pouco diferentes das guerras que vocês têm hoje em dia.
- Diferentes como?
- Nos guerreamos com o que vocês chamam de paint ball.
Anderson Leitão tremeu e o homem de futuro continuou sua explicação:
- Não faz sentido ter que morrer em uma guerra. Nós simplesmente combinamos que no lugar de munição usaríamos tinta e quem fosse atingido teria que sair do território eleitoral.
- Território eleitoral?
- Brasília.
Anderson Leitão parou por alguns segundos tentando entender o que havia escutado.
- Você quer dizer então que as coisas no futuro são decididas em guerras – mais banais que as de hoje em dia -, porem vocês todos combinaram que para evitar as mortes usarão armas de paint ball.
- Isso mesmo – disse o homem que veio do futuro, muito satisfeito com a forma com que as pessoas no seu tempo resolvem as coisas.
- Você não deveria estar feliz. Isso é terrível. As pessoas deveriam resolver suas diferenças de forma pacífica, através de diálogo. Vocês simplesmente inventaram um jeito de pegar o que já era idiota e transformar em algo mais idiota ainda.
Os dois se olharam por alguns segundos e Leitão voltou a falar, só que mais calmo agora.
- E o que impede as pessoas que perderam a guerra de começar outra logo após. Eles não podem simplesmente se contentar em terem perdido uma partida de paint ball.
- Bom senso.
Anderson Leitão gargalhou.
- Você quer dizer que o que faz as guerras de paint ball funcionar é o bom senso? Bom senso?
- Claro. É tudo uma questão de bom senso. Veja, o jeito como vocês fazem as coisas é que não faz sentido nenhum.
- Por favor, se aprofunde.
- É até engraçado. Vocês tentam dialogar antes de ir para a guerra. – O homem do futuro deixou escapar uma risada. – Como é que você dialoga efetivamente sabendo que se tudo der errado você pode dar um soco na outra pessoa? Até existe o interesse em se resolver as coisas pacificamente, mas vocês sabem que não é a única saida.
- Faz sentido até.
- No futuro a gente começa com a guerra. Todos tem uma chance de “matar” aqueles que estão contrários e no fim quem ganha as guerras resolve as coisas. Pode parecer estranho, mas todas as pessoas que morrerem de brincadeira teriam morrido de verdade. Isso mexe com a cabeça das pessoas. E porque insistir em uma coisa que você sabe que não vai dar certo para você? A única saída para estas pessoas é o diálogo.
Anderson Leitão começava a se convencer. Quem sabe o futuro fosse realmente um lugar de pessoas mais evoluídas.
- E você deve estar pensando: mas isso deve fazer com que as pessoas que ganham as eleições ignorem totalmente as que perderam.
- Isso.
- Não acontece. Sabe, mesmo o lado que ganha tem muitas baixas. E poucas pessoas ficam satisfeitas em morrer por aquilo que elas acreditam. A não ser que você acredite em uma coisa só. Eu por exemplo já morri sete vezes. Na primeira vez você até pode se deixar levar por essa idéia, mas lá para a terceira você acaba percebendo que morrer uma vez só pelos seus ideais não é o suficiente. E é muito mais legal estar vivo para ver as coisas dando certo. Ou poder ter a prova de que você estava errado realmente.
- Eu não consigo acreditar nisso, mas até que faz sentido.
- Espero que tenha sido esclarecedor. Agora eu preciso ir.
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