Melhores amigas
Denise e Paula eram melhores amigas. Eram amigas daquelas que contam tudo, que não guardam segredo, como se vivessem uma vida só. Haviam se conhecido no colégio e passado a vida inteira juntas, e era daí que vinha tanta intimidade.
Sempre que algo acontecia uma sempre confortava a outra. Foi assim com o primeiro fora, a primeira bomba na faculdade, a primeira batida de carro, a primeira demissão, a primeira menopausa. Foi assim com tudo que poderia ter sido.
Envelheceram juntas e, apesar das brigas – que existiram, não se engane, e algumas foram até feias -, resolveram passar seus últimos anos vivendo sob o mesmo teto, em um condomínio residencial projetado para a terceira idade.
Um dia Denise chegou em casa da aula de pintura e encontrou Paula chorando.
- O que foi que houve, Paula?
- Minha amiga Denise morreu. Eu acordei do meu cochilo e já tinham levado o corpo dela.
- Que besteira, Paula. Sou eu Denise. Não está me reconhecendo? – Denise já estava acostumada com as confusões da amiga, que não tinha envelhecido tão bem como ela.
Paula balançou a cabeça negativamente.
- Denise estudava comigo no Padre Bernadete, eu reconheço a Denise.
- Mas eu estudei no Padre Bernadete com você, não lembra? A gente matava aula na quadra com os meninos.
- E qual era o nome do menino que a Denise era apaixonada e que tirou a virgindade dela e depois nunca mais quis saber dela de novo?
Denise ficou um pouco chocada com a lembrança repentina da infância, mas foi logo interrompida por Paula que resolveu continuar a frase.
- Eu também não estranho. A Denise nunca teve uma boa higiene pessoal.
- Como assim nunca teve uma boa higiene pessoal?
- Ela era minha amiga, mas fedia. Fedia e era mau caráter.
- O nome dele era Arnaldo! – Disse Denise com convicção, abrindo um sorriso de satisfação, de quem, depois de todos estes anos, consegue arrancar a verdade de uma pessoa falsa.
Paula fez uma cara de espanto. Era mesmo Denise ali parada na sua frente. Ela não podia acreditar.
- Puta que pariu, morri também!













